A fera Popó e o Parreira

Charge para o Jornalistas & Cia

Eram idos de 1994, na editoria de Esporte do Jornal do Brasil, comandada por Oldemário Touguinhó [falecido em 2003], uma das colegas tinha o apelido de Fera Popó, tantos eram os casos em que se envolvia. Tatibitati, falava errado, escrevia mal, mas dela vinham as histórias mais engraçadas.

Parreira era o técnico da Seleção e estava no meio das eliminatórias para a Copa do Mundo. Havia uma grande pressão para que ele convocasse Romário, mas Parreira resistia. No JB, Oldemário fazia o meio de campo e sempre conseguia entrevistas com o técnico.

Naquele dia, especialmente, estavam fechando um caderno especial sobre a Copa, todos ansiosos por uma palavra do Parreira. Eis que a Fera atende o telefone, aos berros, como de costume:

– Alô! Quem? Olegário?

Vira-se para a redação e pergunta:

– Xenti, Olegário taí?

Sem paciência com mais aquela, alguém responde:

– É Oldemário, Fera. E ele não está. Saiu.

Fera reassume o aparelho e dispensa o interlocutor que esperava do outro lado da linha:

– O Olegário zaiu. Tá bom, eu falo pra ele. Té logo.

Quanto está desligando, Fera é inquirida pela redação, todos curiosos para saber quem era. Sem pestanejar, ela responde, desdenhando:

– Ah, era um tal de Barreira…

Correria geral para tentar impedir que ela desligasse. Tarde demais. O telefone já estava no gancho.

Os tucanos de Honduras

Charge para o Jornalistas & Cia

 

A história dessa semana é de Plínio Vicente da Silva, que inclusive me deu um feedback muito bacana sobre a charge dizendo que acertei a fisionomia do Maxuíba mesmo sem ter tido referência sobre isso. Segue abaixo o relato impagável sobre uma controversa venda de aviões de guerra para Honduras na década de 1980.

Recém-chegado de São Paulo com a missão de instalar o escritório de correspondente do Grupo Estado no então Território Federal de Roraima, Plínio foi morar no mesmo bairro em que está até hoje, próximo ao aeroporto e rota de pousos e decolagens. Carioca, Estrella era o único repórter fotográfico profissional que atuava em Roraima e por isso passou a ser seu companheiro de trabalho.

Na manhã de 20 de maio de 1984, por volta das 10h30, Plínio cuidava de acender o carvão à sombra de um caimbezeiro em seu quintal quando viu quatro Tucanos T-27 passarem sobre sua casa, seguidos por um Electra.

Nessa época havia em Boa Vista apenas quatro aviões pequenos – o do Governo do Território e mais três táxis-aéreos – e aqueles T-27 não faziam parte da Esquadrilha da Fumaça, as cores eram diferentes. Foi então que o seu faro de repórter disparou o alarme. Liguou para o Estrella e em cinco minutos estacionaram na frente do Aeroporto Internacional de Boa Vista a fim de descobrir o segredo que havia por trás daqueles aviões.

Como não era horário de chegada ou partida do jato da Cruzeiro do Sul, as portas estavam escancaradas. O único militar de plantão era o velho Maxuiba, cabo da Polícia Militar, nascido José de Ribamar que àquela hora da manhã dormia e roncava sob um dos balcões por conta da ressaca que sobrara da esbórnia da noite anterior.

Quer dizer: não havia vigilância policial, nenhuma segurança armada e ninguém impediu seu acesso ao pátio. Até foram convidados pelo então superintendente da Infraero, Euclydes Monerat, leitor assíduo e admirador confesso do jornal da família Mesquita (que chegava em Boa Vista com dois dias de atraso), a visitar o interior do Electra, cuja carga reunia mísseis Piranha, metralhadoras ponto 50, munição e peças de reposição. Afinal, alertou Plínio, “essa notícia merece sair no Estadão”.

Enquanto Estrella fotografava o restante da carga do Electra e os Tucanos pintados com as cores da Força Aérea de Honduras e o brasão daquele país, Plínio foi ao bar do aeroporto e abordou o comandante da esquadrilha, coronel Armínio Gutierrez. Depois, o acompanhou até o Hotel Tropical (hoje Hotel Aipana), onde ia almoçar com sua tripulação, e lá ele entregou o jogo: o Brasil vendera oito Tucanos para seu país e aqueles eram os quatro primeiros do lote.

Plínio lembrou-se então que Honduras estava em guerra com El Salvador e uma resolução da ONU proibia a venda de armamentos e aviões militares para países localizados em zona de conflito. Para contornar o impedimento, o governo norte-americano negociou com o Brasil a venda dos Tucanos, considerados aviões de treinamento e, portanto, à margem da proibição. Mas que, depois de algumas adaptações, viravam uma poderosa arma de caça aos guerrilheiros.

Ligou para o especialista em assuntos militares e armamentos, Roberto Godoy, então chefe da sucursal do Grupo Estado em Campinas. Sua reação foi de espanto: “Cara!!! Você não sabe o que descobriu. Já sabíamos sobre esses aviões e há um mês a gente estava de campana em São José dos Campos a fim de confirmar a venda”. Como os Tucanos saíram de madrugada, ninguém viu. O que as autoridades não previram é que, por ser o último aeroporto internacional, as aeronaves teriam que, obrigatoriamente, fazer uma escala técnica em Boa Vista.

As fotos e a matéria, complementada pelo Godoy com todas as informações que ele já levantara, foram bater na redação do Estadão e do JT e viraram notícia de primeira página. No Estadão, na edição do dia 24 de maio, uma 5ª.feira. Assinada pelo próprio Godoy, que no texto da página 5 cita minha participação e a de Estrella no levantamento da matéria em Boa Vista, a noticia teve repercussão imediata. O Departamento de Estado norte-americano negou a transação, Honduras confirmou, o Itamaraty desconversou, a Embraer silenciou e Plínio acabou indo parar no quartel do 2º Batalhão Especial de Fronteira (precursor da atual 1ª Brigada de Infantaria de Selva).

Disseram que Plínio não estava indo preso, mas sim “convidado” pelo comandante, coronel de cavalaria Mirócem de Oliveira Elias, para prestar esclarecimentos ao Serviço Nacional de Informação, o temido SNI, que já vivia seu estertor. Dois agentes – Fregapanni, um coronel baixinho e careca, e Dienst, também coronel, um alemão enorme – vieram de Manaus com a missão de descobrir como eu tivera acesso a um segredo militar muito bem guardado na Embraer, em São José dos Campos (SP), e vazado num distante e solitário aeroporto da Amazônia.

Plínio lhes disse apenas que se valeu de duas armas para descobrir a presença dos aviões: seus olhos, diante dos quais desfilaram os Tucanos e o Electra, e o instinto natural da curiosidade, cujo cultivo recomendo a todo repórter, por se tratar de preciosa ferramenta de trabalho. Foi por isso, levado pelo instinto de repórter, que considerou a estranheza daqueles objetos sobrevoando Boa Vista na manhã de um dos meus domingos.

Depois da reportagem e de toda a repercussão causada dentro e fora do Brasil, o ministro da Aeronáutica, brigadeiro Délio Jardim de Matos, determinou a imediata construção da Base Aérea de Boa Vista.

A Luz del Fuego de Krika Ohana

Charge para o Jornalistas & Cia

Corria o ano de 1987. Tempo de efervescência política e econômica pós-fracasso do Plano Cruzado. Nas artes, os exilados que voltaram ao longo da década e muitos outros novatos tentavam cavar espaço na cena artística. A mulher da vez era Claudia Ohana, que acabara de posar nua para a Playboy dos EUA e daqui, em fotos que não saem da memória dos mais assanhadinhos com mais de 35 anos.

Foi então que sua irmã mais velha, Krika Ohana, resolveu se lançar  ao estrelato. A ideia da moça era fazer performances em homenagem à falecida vedete Luz del Fuego, imortalizada nas telas por Lucélia Santos, em um filme de 1982.

O espetáculo, em um teatro da Zona  Sul do Rio de Janeiro, era um misto de performance com show de variedades. Na época, o velho JB rivalizava com O Globo em todas as editorias. Ganhava em Política e Artes e Espetáculos. Apesar disso, nenhum artista gostava de passar em branco nas páginas de O Globo, já que representava uma espécie de passaporte para as telas da tevê. Esta sim, hegemônica, com quase 80% da audiência efetiva no Rio.

Pois bem. O show da moça foi um fracasso e Krika cismou em “culpar” o Globo.

Eis que, um dia, irrompe na redação uma senhora vestindo apenas penacho na cabeça e um salto agulha de 15 cm, ladeada por um baixinho, que depois vim saber era seu empresário, desfilando pelo imenso corredor em “L” que era a redação do jornal na rua Irineu Marinho. A cena deixou os marmanjos boquiabertos, fez a alegria dos office-boys e deixou as moças mais recatadas completamente rubras. Eu, que na época encarava meu segundo emprego (o primeiro foi como estagiário na “escola” Jornal  do Commercio) na profissão, dessa vez como rádio-escuta, sai do “aquário” para ver a moça passar. O chefe de Redação da Geral, o Laguinho, ficou atônito e esqueceu-se de que estava ao telefone com uma fonte e gritou: “Tem mulher nua na redação!”.

Krika conseguiu percorrer 90% do trajeto, tendo sido parada apenas diante da editoria de Economia por dois seguranças chamados às pressas na recepção. Além do empresário baixinho, que gritava a plenos pulmões algo do tipo: “Vocês não quiseram assistir ao show, então trouxemos o show até vocês!”. Ela era seguida de perto por um fotógrafo que fez cliques à vontade. Os filmes foram confiscados. Contudo, um deles, certamente com a cumplicidade de algum coleguinha, vazou e foi estampar as páginas do arquirrival JB.

Evandro de Andrade, que era conhecido pelo modo, digamos, assertivo com que tratava das crises, fez um editorial pra lá de irado em O Globo. Desde então, nenhuma visita conseguiu mais entrar na redação. As visitas eram recebidas no térreo ou, no máximo, na antesala da redação. Culpa da nudez de Krika Ohana.

Lançamento Nanquim Descartável 4

Nessa sexta, dia 28 de janeiro, às 19h na Livraria HQ Mix (Praça Roosevelt 142, São Paulo – SP), acontecerá o lançamento da nova edição da Nanquim Descartável do meu amigo Daniel Esteves, publicação vencedora do Troféu HQ Mix de melhor publicação independente.

Eu desenhei o capítulo final da edição que também conta com desenhos de: Wanderson de Souza, Mário Cau, Júlio Brilha, Fred Hildebrand, Wagner de Souza, Alex Rodrigues e Carlos Eduardo. A capa é de Luke Ross com cores de Al Stefano.

Estão todos convidados!

Além do lançamento na Livraria HQ Mix, o Daniel Esteves realizará um bate-papo na Gibiteria da Praça Benedito Calixto e uma festa de lançamento no estúdio da HQ em Foco. Compareçam!

– 12/02/11 a partir das 14hs – Bate papo comigo e os desenhistas da publicação sobre a produção da série. Na loja Gibiteria: Praça Bebedito Calixto, 158 – 1o. Andar – Pinheiros.

– 12/03/11 a partir das 18hs – Festa Nanquim Descartável. Uma festinha e exposição de trabalhos em março para comemorar o lançamento. Estúdio HQEMFOCO: Av Alvaro Ramos, 404 – Sala 11 – Metrô Belém.

Charge para o Jornalistas & Cia

O Brasil é campeão mundial de redução do número de fumantes. Em uma década, 30% dos viciados abandonaram o cigarro, resultado único no mundo. O inusitado é que a responsável pela campanha vitoriosa, a cardiologista Jaqueline Issa, do Instituto do Coração, atribui o resultado – que se mede em milhares de vidas poupadas em infartos que não ocorreram e câncer do pulmão evitados – ao trabalho de assessoria de imprensa.

Na entrevista que me deu, num frila para a revista da Sociedade de Cardiologia, ela não escondeu os nomes: “O sucesso da campanha contra o cigarro foi conseguido pelo André Aron, que era assessor de imprensa da Secretaria da Saúde, pelo Flávio Tiné, do Hospital das Clínicas, e pela Rita Amorim, até hoje assessora de imprensa do Incor.

A ligação de Jaqueline com o problema do fumo começou com o infarto de sua mãe, aos 38 anos, devido ao cigarro, e culminou com a indicação para assumir a área de Tabagismo do Grupo de Qualidade de Vida do Incor.

“Quando eu soube que a Organização Mundial da Saúde tinha um dia temático voltado para o combate ao fumo, escrevi pedindo apoio”. E, para sua surpresa, junto com os gráficos e tabelas sobre incidência de doenças causadas pelo fumo, recebeu na primeira remessa um vídeo de um repórter da CNN que explicava a importância da imprensa, mostrava como fazer textos ao alcance do público leigo e como aproveitar o poder da mídia.

A dra. Jaqueline diz que levou a sério a indicação, procurou os assessores de imprensa do setor da Saúde, pediu que começassem a fazer releases, passou a acordar de madrugada para entrevistas sobre o cigarro no Bom Dia São Paulo, da TV Globo, por exemplo, a atender a pedidos de rádios para entrevistas presenciais e por telefone, e acabou virando “figurinha fácil” nos jornais e emissoras, conheceu todos os âncoras e criou muitas amizades. Ela diz que foi a exposição na mídia que acabou resultando na legislação restritiva ao fumo, que começou com uma lei do então ministro Adib Jatene, passou pela proibição do cigarro em restaurantes, depois shoppings, até que leis municipais passaram a pipocar em dezenas de municípios, propostas por políticos que, diz ela, “sentiram que o combate ao cigarro lhes dava visibilidade positiva junto à população”.

Hoje, 15 anos depois, a médica incorporou o jargão das redações, fala com desenvoltura em pauta, furo, exclusiva, matéria derrubada e não esquece a dívida para com os jornalistas que, para ela, continuam seu trabalho muitas vezes anônimo, sem nem imaginarem que há muito ex-fumante que só continua vivo por causa das matérias e da campanha que eles divulgaram.

O trio ao qual ela credita o sucesso continua na ativa. André Aron está na Original123, de assessoria de imprensa. Flávio Tiné ainda trabalha com saúde, pois organiza um fórum na Universidade Aberta para o Envelhecimento Saudável e acaba de ter duas vitórias: foi anistiado por perder dois empregos na época da ditadura, na Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Recife e na Última Hora, e acaba de ser reintegrado no Hospital das Clínicas, de onde foi demitido em 2004 porque continuava trabalhando, apesar de receber aposentadoria do INSS. “O TST mandou que me pagassem a multa de 40% do FGTS e os anos trabalhados”, diz ele, que, é claro, ainda não recebeu a grana, mas continua esperançoso.

Quanto a Rita Amorim, não há pauteiro que não receba diariamente e, às vezes mais de uma vez por dia, os releases e as pautas vindas pelo conhecido e-mail rita.amorim@incor.usp.br.

Strip-tease

Charge para o Jornalistas & Cia

Uma assessora de imprensa, conceituada profissional nas áreas de cultura e comportamento, excelente divulgadora de espetáculos, certa vez foi chamada para divulgar um curso de streap-tease para não profissionais. O público-alvo era quem pretendesse se aperfeiçoar, digamos assim, nas prendas do lar. A nota era curiosa, e foi publicada. Saída a edição, liga a assessora para agradecer e comentar que o resultado tinha sido muito bom.  Diferentemente do esperado, não gerou matéria alguma nos meios de comunicação. Como, então, ela considerava bom resultado? Simples assim: várias jornalistas se matricularam no curso. Não me disse quem foi, nem eu perguntei. Mas alguns colegas das redações estariam, agora, lado a lado, ao que foi definido na canção de Erasmo Carlos: “insuspeitas superstars, mulheres de brilho farto, no palco do seu quarto”.

A festa dos laços

Charge para o Jornalistas & Cia

 

Aconteceu entre os dias 3 e 5/12 (sexta a domingo) o 31º Encontro de Jornalistas Waldemar Lourenço, que reuniu em Águas de Santa Bárbara, pertinho de Avaré, no interior de São Paulo, os integrantes da rede de sucursais e correspondentes da Agência Estado, além do pessoal da sede que recebia as matérias. Idealizada por Raul Bastos, hoje diretor de Planejamento da agência DM9DBB, e por muitos anos sob o comando de Adhemar Oricchio, assessor de imprensa do Sindicato das Escolas Particulares do Estado de São Paulo, a rede durou até meados do ano 2000, quando foi desativada. Deste tempo de trabalho sobrou uma forte amizade, consolidada ano a ano por e-mail e com o encontro presencial marcado sempre para o primeiro final de semana de dezembro.

É um momento muito esperado, para a qual a maioria dos participantes leva suas famílias para esta grande confraternização. A seguir, algumas histórias e curiosidades do encontro, definido por José Rodrigues como “a festa em que se renovam os fantásticos laços de amizade fechados entre nós, mas abertos a todos que quiserem fazer parte”:

– o encontro foi batizado de Waldemar Lourenço em alusão à memória daquele que foi correspondente por muitos anos em Presidente Epitácio. O sempre alegre e inspirador “Seu Waldemar” sempre vinha ao jornal com seu conjuntinho de brim de uma cor só, boina e a indefectível malinha;

– o grande homenageado foi Rodolfo Spínola, falecido aos 62 anos na véspera do segundo turno da eleição deste ano. Por 30 anos correspondente em Fortaleza, Rodolfo juntou-se ao grupo em 2008 e já havia colocado sua cidade à disposição dos colegas. Fez muita falta seu sorriso e entusiasmo contagiantes;

– grande “contador de causos” e autor de trovas famosas entre o grupo, José Costa distribuiu mais uma edição do jornal O Amigão, que trouxe “pérolas” do tipo:

“Os maiores veículos de comunicação do planeta já estão preocupados com o grande encontro de profissionais em Águas de Santa Bárbara. Tudo isso em função de que estarão reunidos os maiores nomes do jornalismo mundial. Serão nomes obrigatórios: os que estão na ativa, bem como os aposentados e os que estão na reserva.”

”O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, deverá anunciar em breve que deseja manter audiência reservada com Adhemar Oricchio. Moon quer saber como montar um projeto em que elementos diversos passam a ter um comportamento civilizado. Dependendo do acordo entre ele e Adhemar, provavelmente a equipe deste último será convidada a organizar a próxima assembléia geral do órgão.”

”O Olivier Vianna alega que seu computador não tem memória suficiente para registrar os aniversários do pessoal. É que o programa que ele usa tem que citar o ano do nascimento, que vai se acumulando todas as vezes em que ele faz o lembrete. É que todos nasceram no milênio passado.”

– outro “patrimônio da memória” é Realindo Júnior, de Franca, que até hoje conta, bem humorado, sobre as confusões rotineiras que o pessoal do jornal fazia entre ele e o quase homônimo Reali Jr., que vive na França. Um dia, o pessoal de Esportes do JT ligou para ele pedindo matéria de 60 linhas sobre a vitória de uma dupla de brasileiras em uma competição aquática. “Tudo bem, eu faço, apesar de estar a 12.600 km de distância. Para o Reali é mais fácil, já que é bem mais perto, a apenas 600 km (de Paris)”. Daí o pessoal se tocou da mancada, “cometida” às 2h da manhã

– a rede se uniu para que Toninho do Carmo vencesse um campeonato de fotos promovido pela Prefeitura de Ilha Solteira, ao mobilizar um exército de gente para votar pela internet. Feliz com o incentivo, Toninho deu uma cópia impressa da foto premiada de presente para cada um;

– foi também essa turma que deu apoio irrestrito a Judas Tadeu de Campos, de São Luiz do Paraitinga, cidade fortemente atingida pelas chuvas há quase um ano. Além do apoio moral, o ex-correspondente Judas recebeu visitas e doações;

– Wanderley Midei foi o “elemento de intersecção” entre este encontro e o almoço da turma do JT, que aconteceu em novembro;

– dois dos presentes ao evento que se “reinventaram” foi Galeno Amorim, com um amplo trabalho dedicado à difusão do livro e que foi candidato a deputado estadual pelo PT na última eleição; e José Roberto Dantas Oliva, hoje juiz do Trabalho. Galeno recebeu um busto de madeira enviado pelos alunos do mariliense Colégio Criativo, de propriedade de Luiz Carlos Lopes, que assim agradeceram sua presença em palestra durante uma semana cultural. Já o “meretríssimo” Oliva será o anfitrião do 32º Encontro, que acontecerá “pelas bandas” de Presidente Prudente em 2011.

Little Heroes

E para fechar o ano com chave de ouro: já está disponível para Wowio a primeira edição norte-americana de Pequenos Heróis!

Little Heroes será publicado em 4 edições digitais pela editora 215Ink.

O primeiro volume contém as HQs SuperbroThe Lantern, ilustradas, respectivamente, por mim e pelo Raphael Salimena e ambas roteirizadas pelo Estevão Ribeiro.

Posteriormente teremos uma edição impressa compilando todos os volumes da série.

A bela capa ao lado é assinada pelo talentoso Anderson Nascimento.

Para baixar Little Heroes no Wowio, basta acessar o link: http://www.wowio.com/users/product.asp?BookId=231712

Presente de Natal

Fala pessoal,

Fiz uma HQ natalina para meus queridíssimos leitores da EntreQuadros

Beginning of a Great Adventure” é uma continuação da história “A Walk on the Wild Side“, presente no segundo volume da EntreQuadros, mas não é preciso ter lido uma para poder entender a outra.

Este novo trabalho está disponível gratuitamente no site da Balão Editorial! Não deixem de conferir e boas festas a todos!

Charges Jornalistas & Cia

Estava há um bom tempo sem postar as charges do Jornalistas & Cia aqui. Seguem abaixo as mais recentes.

Não se reprima

Era o almoço de posse do presidente da Associação dos Jornalistas de Economia do Estado de São Paulo (Ajoesp). Almoço, bons vinhos, discursos. Lá pelas tantas, creio que o Teodoro Meissner foi à janela e viu uma multidão de adolescentes gritando tão alto que era possível ouvi-las no 28º andar do hotel. A razão da gritaria: os então famosos meninos do grupo musical Menudo estavam hospedados no Hilton.

Não deu outra: imediatamente alguns jornalistas presentes começaram a escrever nos guardanapos e agitá-los lá de cima como se fossemos os Menudos.. Meus amigos, o tumulto ficou descontrolado… Jogávamos guardanapos com TE AMO, I LOVE YOU e outras mensagens de amor. A cada guardanapo, gritos desesperados. O trânsito parou, pois as meninas invadiram as duas pistas da avenida. Precisou vir a polícia para acabar com a bagunça e liberar o trânsito. O discurso do Rocco foi ofuscado pelo Menudo.

Um repórter da TV Globo, se não me engano o Carlos Dornelles, virou-se para os “baderneiros” e alfinetou: “Mas quanta maldade…”.

Em busca da ossada perdida

Pela antiga Central de Polícia de São Paulo, um casarão da rua Roberto Simonsen, construído sobre a casa de taipa do bandeirante Gaspar de Godoy Moreira, passaram na década de 1960 nomes históricos da reportagem: Espaguete, Afanásio, Zaqueu Sofia, Wanderley Midei, Inajar de Souza e dois dinossauros famosos, Antonio Soares e Leonel, que se revezavam cobrindo pelo Estadão.

Anos depois de desativada a Central, Leonel contou que dela saía um túnel muito antigo, que presumivelmente no século XVI ligava a casa ao mosteiro de São Bento e que alguns policiais usavam para “amolecer” os presos pois, se espancados dentro do túnel, seus gritos não eram ouvidos na superfície. O túnel se explicava porque em 1562 a pequenina São Paulo quase foi destruída pelo ataque dos tamoios, aliados dos franceses de Villegaignon que tinham invadido o Rio de Janeiro, e alguns túneis faziam parte da defesa.

Essa velha história foi lembrada pelos pauteiros quando da perfuração do túnel da linha Norte-Sul do Metrô, no subsolo do Pátio do Colégio, mas a Companhia do Metrô não achou túnel algum. A lenda, porém, ficou na memória do reportariado e anos depois, quando o Metrô começou a trabalhar no vale do Anhangabaú, para fazer a Leste-Oeste e abrir a Estação da rua Formosa, a história foi modificada para mais um trote memorável.

Um foquinha do Estadão recebeu como pauta “driblar os engenheiros sacanas do Metrô”, que teriam topado com os ossos do padre Anchieta e caixões de vários bandeirantes ao perfurarem o solo. Como queriam era tocar a obra, o foca não deveria se impressionar com a negativa enfática dos engenheiros. Tudo o que precisava fazer era entrar correndo pelo túnel, ignorando as reclamações dos seguranças, e encontraria os “restos sagrados dos primeiros colonizadores de São Paulo”.

Antecipando o furo, o repórter se apresentou, ouviu a explicação lógica de “você está louco, meu, não tem nada aqui” e se mandou à toda para a boca do túnel, só não conseguindo entrar porque, devido à altura do lençol freático, o túnel era cavado sob pressurização e a boca só se abria de vez em quando, para a saída e entrada dos operários.

O coitado do foca, depois de solto (porque é claro que foi preso), desistiu da profissão, mas alguns coleguinhas não entenderam “o espírito da coisa” e acharam que o Estadão tinha achado um filão e que a notícia procedia.

Coube a Táta Gago Coutinho, que assessorava a então Secretaria de Vias Públicas, tourear os repórteres que queriam confirmar o encontro dos restos mortais dos bandeirantes. E é ela quem conta que, mesmo depois de provar que Anchieta morreu em Vitória, teve que chamar o elegantíssimo secretário Geraldo Borghetti, que acumulava a pasta e a Emurb, para explicar, muito sério, para repórteres extremamente desconfiados, que a São Paulo antiga não ia além de 500 metros do Pátio do Colégio e que o Anhangabau, então um brejo intransitável, nunca fora cemitério de ninguém. “Mas a história demorou a morrer”, conclui ela.

Escada Abaixo

Ali pelo final de 1964 Francisco Baker era repórter do Jornal do Brasil no Rio de Janeiro, fazendo um plantão diário entre 18h e 23 horas. Certa noite recebeu a incumbência de fazer o registro de uma homenagem ao governador Adhemar de Barros, de São Paulo, um banquete promovido pelo dono dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, o Chatô. O motivo da homenagem era a participação de Adhemar no golpe militar de seis meses antes, que ainda contava com o apoio de praticamente toda a grande imprensa da época, à exceção da Última Hora de Samuel Wainer (e do Correio da Manhã do Rio, que primeiro apoiou e depois se arrependeu). Ao chegar ao local do regabofe, a sede da revista O Cruzeiro na rua do Lavradio, lá encontrou, com a mesma incumbência jornalística, seu ex-colega de faculdade Elio Gaspari, que era repórter da sucursal Rio do Diário de S.Paulo.

A cena era meio surrealista. O homenageado, corpulento mas com as faces rosadas, circulava pelo salão, ornamentado por folhagens e enormes frutas artificiais, na companhia do anfitrião, este em cadeira de rodas (consequência de um derrame), sem conseguir articular nenhuma palavra inteligível e vestido numa farda de coronel da PM da Minas, uma patente honorária que recebera tempos antes. Boa parte da plutocracia nacional se apinhava no local, pois O Cruzeiro ainda desfrutava de circulação expressiva e prestígio.

Elio acabara de ser expulso da Faculdade Nacional de Filosofia por razões políticas e iniciativa do diretor da Faculdade, Eremildo Luiz Vianna (não por coincidência, com o mesmo nome daquele personagem fictício que hoje frequenta as colunas do Elio).  A matéria era insossa e o horário ingrato, de forma que combinamos passar o texto por telefone e aproveitar a boca-livre. Os dois descobriram um telefone ao lado do salão e fui o primeiro a passar a nota. Quando chegou a vez do Elio ele não se limitou aos dados do texto. Alguém da sucursal perguntou sobre a festa e ele não resistiu em exercitar sua costumeira ironia: “A decoração é tropicalista – informou ele –, isto aqui está cheio de cachos de banana e pencas de abacaxi. Mas como o Chatô não é bobo, mandou amarrar tudo no alto das colunas para que o pessoal do Adhemar não carregue para casa”.  E continuou a fazer comentários no mesmo tom, evocando a antiga reputação do governador paulista, conhecido como aquele que “rouba mas faz”.

Um sujeito que estava ao lado ouvindo a conversa teve então uma explosão de indignação e começou a desacatar o Elio sem sequer esperar que ele saísse do telefone. “Seu moleque, cafajeste, você não pode falar desse jeito”. Resolvi sair em defesa do meu colega e argumentei com o sujeito que não tinha porque se meter numa conversa telefônica privada. Para surpresa de Baker, o Elio encerrou o assunto rápido e me puxou pelo braço. “Deixa isso pra lá, vamos sair daqui”.  Enquanto outras pessoas tiravam o indignado por um lado, eles sairam por outro e o Elio se lembrava de uma obviedade que lhes escapara: “Você se esqueceu de que o meu jornal é parte dos Associados? Se o cara descobrir quem eu sou vai se queixar e eu estou na rua. Não posso perder esse emprego”.

Apesar do incidente, e como estavam com fome, voltaram ao banquete. Mal iniciaram a salada quando viram que o sujeito da altercação, um assessor do Adhemar, no outro extremo do salão, os apontava e gesticulava agitado para uns dois ou três sujeitos com físico do porte guarda roupa. Ali mesmo interromperam a boca-livre e seprecipitaram escada abaixo – o Elio achou que o elevador poderia ser uma escolha fatal – e só pararam de correr quando estavam na rua do Lavradio, a dois quarteirões de distância da sede de O Cruzeiro.

Que banquete, que nada! Naquele início de tempos bicudos, que ainda iam durar 20 anos, o lugar mais seguro era a redação.