História de Cajafeste

Charge para o Jornalistas & Cia

A ano 1970. Época dos sequestros políticos, das prisões ilegais, das torturas nos cárceres pela repressão política. Renato Lombardi trabalhava na sucursal do O Globo em São Paulo. Cobria além da área de segurança o temido Dops. Tinha dificuldade em conseguir informação e graças a Inajar de Souza, grande repórter do Jornal da Tarde, tratado pelos colegas pelo carinhoso apelido de Cafajeste, Lombardi ia aos poucos conseguindo fontes para fazer o seu trabalho. Ele não desgrudava do Inajar nas grandes coberturas. Em março de 1970 o cônsul japonês em São Paulo, Nobujo Okuchi foi sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR.
O cônsul morava numa bela casa na Praça Buenos Aires pertinho da Avenida Angélica. O portão e a mureta que davam para a rua eram baixos. Havia uma rampa que levava à casa com um coqueiro à direita. (Anos depois construiram um prédio no lugar da casa.) Lombardi e o Inajar, estavam numa solenidade na Secretaria da Segurança que ficava na Rua Brigadeiro Tobias. Terno e gravata ouviram sobre o sequestro e fomos para a Praça Buenos Aires.
Na entrada da casa um policial que nos perguntou de onde eram. Inajar disse.
   – Somos do Estado
E o policial autorizou a nossa entrada. Acharam fácil para um sequestro daquela envergadura. Inajar encontrou policiais que conhecia dentro da casa e começamos a levantar a história. Ficaram por mais de duas horas. Material apurado. Vida do cônsul, a maneira como o sequestro ocorrera, o que a polícia estava fazendo, os primeiros contatos dos sequestradores. Pegaram ainda fotos do cônsul que estavam sobre uma escrivaninha.
Quando se preparavam para sair chegou aquele que os expulsaria daquela casa. O delegado Sérgio Paranhos Fleury. Ao nos ver se aproximou como toda a “educação e delicadeza”, chamou os policiais que conversavam com a esposa e os em pregados do cônsul e gritou.
  – Quem autorizou a entrada desses dois?
Ninguém respondeu. Mandaram chamar o policial que estava no portão.
  – Você permitiu a entrada deles? – vociferou Fleury
  – Foi sim senhor, respondeu o policial todo amedrontado
  – E porque, gritou o delegado  
  – Doutor, disse o policial, eles disseram que eram do Estado. Achei que eram da casa
Em todo o seu autoritarismo, o delegado chamou um de seus subordinados e determinou disse que nos levassem ao Dops para os autuar por falsidade ideológica. Tinham passado por funcionários do Governo do Estado. Ele os acusava de que tinhamos passado por policiais.
Foi ao que o Inajar argumentou
   – Espera lá doutor Fleury. Pergunte ao seu sobordinado exatamente o que eu disse.
O policial repetiu
   – Esse moço – apontando para o Inajar – falou que era do Estado
Inajar sacou da credencial do jornal  com as informações: Jornal o Estado de S. Paulo. Repórter. E Entregou para o delegado. “Sou do Estadão. Jornal O Estado de São Paulo.”
Fleury apontou para Lombardi.
    – E esse ai
   – Ele trabalha no O Globo e em momento algum se identificou como do Estado, disse Inajar. Verdade ou mentira? perguntou ao policial.
   – Verdade concordou o tira
Os colocaram para fora da casa. Mas tinham toda a história. No dia seguinte o JT deu uma página. O Globo também uma página. O cônsul acabou sendo libertado, trocado por 5 prisioneiros.  Infelizmente o velho Cafa nos deixou há algum tempo. Virou nome de Avenida na zona Norte de São Paulo.

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