A interdição de Fausto Macedo

Charge para o Jornalistas & Cia

A história dessa semana é de Francisco Moacir Assunção Filho.

Quando começou a trabalhar no Estadão, lá pelos idos de 1999, Francisco foi apresentado a Fausto Macedo.

A mesa do Canalha (apelido de Fausto) era a mais bagunçada de todo o jornal. Ali, se acumulavam processos inteiros da Polícia Federal, investigações do Ministério Público, ações de toda ordem e documentos importantes. Era tanta coisa que a redação brincava dizendo que ele poderia usar as pilhas de documentos como casamatas em caso de um absolutamente improvável ataque aéreo contra o jornal ou, até, se esconder atrás caso o chefe quisesse passar mais uma missão além das que já tinha. O mais curioso é que ele, mesmo assim, encontrava tudo o que precisava, deixando todo mundo pasmo com a sua capacidade de (des)organização. Era tanta coisa que, certa vez, um diretor da Polícia Federal fez uma visita à sede do jornal e disse, brincando, que ia mandar apreender os documentos porque lá, com certeza, estavam as últimas operações da PF e eram papéis sigilosos.

Francisco resolveu então, brincar com o Canalha. Junto com um colega, desceu até o andar térreo do prédio do Estadão, onde funcionava o setor dos bombeiros civis e da manutenção, e pediu que lhe arrumassem um pouco daquela fita amarela e preta usada para, por exemplo, isolar áreas em obras. A desculpa é que precisava do material para fazer uma reforma no muro de casa e mantê-lo isolado dos vizinhos. Gentilmente, o rapaz me deu um pacote inteiro da fita.

Voltou à redação e passou a fita em volta da mesa e da cadeira do Fausto que, naturalmente, estava na rua atrás de mais uma matéria que certamente iria para a capa do jornal. Além disso, fez um cartaz, impresso no computador, no qual aparecia a frase “interditado pela Defesa Civil”. Colocou lá uma lei que, claro, não existia, mas era a número tal, fundos, como se fosse o endereço de uma casa, e deixou a fita lá, isolando toda a área onde ficava o Fausto, inclusive com os documentos oficiais. Colado na frente, o papel dizia que as pilhas eram uma ameaça à segurança e à saúde pública. Havia até risco de desabamento, como brincava o colega Daniel Bramatti: “Basta ver o que houve no Morro do Bumba”, dizia, em referência ao morro cujo desabamento causou uma tragédia em Niterói, no Rio de Janeiro. Bramatti sempre alegava que ele seria a primeira vítima do deslizamento da Encosta do Macedo, como batizou as pilhas de papéis do Fausto, já que se sentava em frente à mesa do colega repórter.

Pois bem, isolado e cercado o local, ficou observando, junto com outros colegas de redação, a reação das pessoas, enquanto esperava a “vítima”. Fez até várias fotos para mostrar o momento em que conseguimos, enfim, interditar a mesa do Canalha. Os colegas paravam, olhavam aquela cena e riam. Todos achavam engraçada a tal da interdição, até porque tinha gente que dizia que devia ter até ratos e baratas embaixo das pilhas de papel do Fausto, então devia ser tirado de circulação mesmo.

Teve gente que parou, fez algum comentário como “já não era sem tempo”, pensando que era de verdade, outros somente riam e passavam direto sem falar nada e até o então editor-chefe Marcelo Beraba (hoje na sucursal do Rio) foi, curioso, até a mesa do Canalha e sorriu muito ao ler o tal “decreto de interdição” da mesa dele. Estava impossível sentar-se lá, porque a cadeira também ficava na área de interdição a bem da saúde pública. Só faltava o próprio. Já eram umas 19h e nada do Fausto aparecer, para que pudessem ver a cara dele com a interdição.

Ligou para ele, dizendo que precisava que voltasse porque a chefia tinha passado uma matéria para os dois e tinham que combinar como fazer, depois inventou que havia uma pessoa o esperando na redação e nada. Outro colega telefonou para ele e disse que precisava contar algo pessoalmente e não adiantou. Passava das 21h, o jornal já fechado, e ele não aparecia. Os autores da arte, tiveram que ir embora porque já eram mais de 22h e chegamos à conclusão de que o Canalha não voltaria naquele dia e teríamos que adiar para o seguinte a rara oportunidade de ver a cara dele quando soubesse da interdição. Francisco tinha até um discurso pronto, no qual alegaria que não tive como impedir que a mesa fosse interditada, já que havia uma ordem expressa da Defesa Civil que não podia ser desobedecida.

Ao chegar de manhã, no dia seguinte, Francisco teve uma surpresa: a mesa do Fausto estava plenamente desinterditada, sem marca alguma do ocorrido no dia anterior, e a minha fechada e interditada, com a mesma fita amarela e preta. No cartaz preso na frente do computador que eu usava, uma frase escrita nos moldes da que deixamos no computador dele: “interditado por ordem da Secretaria de Saúde. Cachorro louco na área”, alertava, informando para os passantes terem muito cuidado com o tal bicho feroz (havia um desenho lhe representando).

Logo em seguida, o dito cidadão chegou, sorridente como sempre. Francisco perguntou se ele havia madrugado no jornal, já que eram pouco mais das 9 da manhã e haviam ficado até tarde o esperando para dar boas risadas. Ele contou, então, que sentira, pelo excesso de ligações, que havia um golpe em andamento e que o envolvia.

“Quando todo mundo começou a ligar, pedindo para eu voltar, percebi que era uma ‘cama de cabôco’ que estava armada para cima de mim”, explicou. Resolveu, por causa disso, adiar o regresso ao jornal, onde aportou por volta da meia-noite, quando não havia quase mais ninguém lá. Ao chegar, viu o cartaz e resolveu devolver a brincadeira, no que foi feliz. Francisco tentou tirar a fita, mas lhe convenceram a deixá-la lá até a hora do almoço, pelo menos.

Pequenos Heróis venceu o HQ Mix!

Olá pessoal!

É com muito orgulho que lhes informo que Pequenos Heróis ganhou o Troféu HQ Mix de Melhor Publicação Infanto-Juvenil!

Pra quem não sabe, Pequenos Heróis é um projeto do meu comparsa Estevão Ribeiro que homenageia super-heróis clássicos com histórias de crianças comuns. Eu co-editei e ilustrei uma das HQs do álbum. Além de mim, os talentosos Raphael Salimena, Jaum, Fernanda Chiella, Vítor Cafaggi, Emerson Lopes, Ricardo Leite, Dandi e Léo Finochi também participaram deste primeiro volume. A capa ficou por conta do espetacular Davi Calil.

Todo ano o HQ Mix homenageia um personagem diferente em sua estatueta. Desta vez foi o escolhido foi o impagável Geraldão, do cartunista Glauco que perdemos tragicamente ano passado. E, pelo visto, a estatueta terá partes móveis pra emular os grafismos de braços inquietos que Glauco tanto usava em seus personagens. Vejam abaixo.

A premiação será no dia 16 de setembro no Sesc Pompéia a partir das 19h30 na cidade de São Paulo. A lista com os demais vencedores pode ser conferida no blog da premiação.

O segundo volume de Pequenos Heróis está em produção e nele prestaremos tributo aos personagens da Marvel. Segue abaixo em primeira mão um preview da minha HQ pra essa edição.

Nanquim, Som & Fúria # 03

Dave Sitek

Dave Sitek  é guitarrista do TV on the Radio, uma belezura de banda que renderá outros retratos por aqui futuramente. A música abaixo é do álbum mais recente deles, Nine Types of Light, um dos melhores que saíram este ano até agora.

Além do TV on the Radio, o Sitek também é produtor de mão cheia. Produziu discos do Yeah Yeah Yeahs, TV on the Radio, Foals, Liars, Holly Miranda entre outros. Como se isso tudo não bastasse, ele ainda tem um projeto solo intitulado o Maximum Balloon, cujo disco (adivinhem) foi um dos meus preferidos do ano passado. Fiquem abaixo com a viciante ‘Tiger‘:

Jesus vai de picanha na Sexta Santa

Charge para o Jornalistas & Cia

Antes que algum católico fervoroso queira me crucificar com essa releitura nada ortodoxa da Última Ceia, leiam a história dessa semana por Valdir Sanches.

Era Sexta-Feira da Paixão, feriado. Valdir Sanches perfilava entre os repórteres de plantão na redação do Jornal da Tarde. O Zé Maria de Aquino, no comando da redação, nessa manhã, lhe vem com uma pauta.

– Sanches, como estará o movimento nas churrascarias hoje?

Sem entender a proposta, Valdir responde.

– Churrascarias no feriado…

E lhe encarou com um olhar de “e então?…”.

Ah! Churrascaria num dia em que não se come carne… Sim, boa pauta! Solicitada a companhia de um fotógrafo embarcaram na viatura da reportagem.

Logo na Avenida Sumaré havia uma churrascaria, não muito grande, mas bem ajeitada. Entraram. Umas tantas mesas ocupadas. Escolheram pelo jeito o entrevistável, que parecia comandar a mesa com mais dois homens, e o abordaram.

– Somos repórteres do Jornal da Tarde…
O homem parou de comer sua picanha. Explicaram a matéria, ele entendeu o espírito da coisa. Tinha uma pequena empresa no bairro, e estavam trabalhando, mesmo com o feriado. Os outros dois eram seus empregados.

Vai aquela conversa boba, comer carne hoje, Sexta-Feira Santa? Que que tem, é coisa antiga, poucos ainda ligam, etc. etc.. Fotos do homem com seu prato de carne. Para não inibir, nessas situações, perguntam o nome no fim da entrevista.

– Como é o seu nome?

– Jesus Barbalho.

Barbalho? Puxa, o governador Jader Barbalho estava na crista do noticiário, acusado de irregularidades. Conversaram um pouco sobre isso, Valdir fez mais duas ou três perguntas, e sairam.

Na rua, o fotógrafo pede o nome do entrevistado, para identificar a foto. Valdir lê suas anotações e cai duro. Jesus Barbalho. O homem se chama Jesus! Se impressionei tanto com o Barbalho que não gravou o Jesus!
Avaliou se era o caso de voltar à mesa e interromper novamente o almoço do bom Jesus. Mas não, o que eu tinha estava bom.

Foram a mais duas churrascarias, embora a matéria já estivesse pronta. Numa delas, pergunta o nome do entrevistado.

– Ricardo Teixeira.

E não tinha nenhuma ligação com futebol.

Valdir voltou à redação contando logo que havia entrevistado Jesus comendo carne. Redigiu a matéria. Foi para um copy altamente criativo. Deu o título, para o alto de página: Jesus vai de picanha na Sexta Santa.

A redação se empolga. Matéria bem-humorada, diferenciada, acima do noticiário de estradas e cemitérios. Na época, o editor de Geral era um rapaz com jeito de Superboy, puro dinamismo. Mas fora de tom para um jornal como o JT. Leu o título, ficou inseguro – e o vetou.

Em seu lugar entrou alguma coisa opaca, que matou a página e o espírito da matéria. O texto, com algum molho, foi mantido. Mas não era a mesma coisa.

Nanquim, Som & Fúria # 02

St. Vincent

O nome real dela é Annie Clark, é de Tulsa, Oklahoma, EUA. Já foi membro da banda The Polyphonic Spree e já lançou dois ótimos discos: Marry Me (2007) e Actor (2009). Seu nome artístico é uma referência ao Saint Vincent’s Catholic Medical Center onde o poeta Dylan Thomas faleceu em 1953. Como ela própria diz: “O lugar onde a poesia vai para morrer. Essa sou eu.”. St. Vincent tem um estilo muito próprio que consegue ser sereno e sombrio ao mesmo tempo, como seu olhões hipnóticos. É uma geniazinha que toca uma penca de instrumentos e, na minha opinião, é uma das melhores guitarristas em atividade.

Esta abaixo é de seu próximo disco, Strange Mercy, que será lançado agora em setembro.

Nanquim, Som & Fúria # 01

Vou começar a postar retratos  de músicos que aprecio.

O primeirão abaixo é o Flying Lotus, um DJ e produtor da Califórnia que tem realizado trabalhos com ninguém menos que a Erykah Badu e o Thom Yorke do Radiohead. Teve show dele,  acompanhado do baixista Thundercat, dia 20 agora no Sesc Belenzinho. Quem não foi perdeu um dos DJs mais chapantes que já vi ao vivo.

O cara tem parentesco com o John Coltrane e seu som traz o mesmo espírito do Free Jazz pra música eletrônica. Ano passado lançou um discaço intitulado Cosmogramma. O vídeo abaixo é de um single desse álbum:

O terror das cabines

Charge da semana para o Jornalistas & Cia

Pelos idos dos anos 1980, tempo da máquina de escrever nas redações, a equipe do Estadão/Jornal da Tarde/Agência Estado que ia fazer cobertura externa, e também os correspondentes e colaboradores, tinham apenas dois meios para enviar a matéria: o telex e o bom e velho telefone – o então moderno fax chegaria quase na virada para a década seguinte. Quem ligava de fora dispunha de um time de pessoas aptas a “pegar matéria”, conhecidas como “o pessoal da cabine”. Todos trabalhavam nas Comunicações, então chefiada por Alaur Antonio Martins.
A cabine era um espaço minúsculo, onde cabiam apenas um suporte para a máquina de escrever – nessa época já elétrica, para felicidade geral da nação –, uma cadeira e, no alto, um suporte para a bobina de papel, um rolo com oito vias carbonadas, que, após registrarem o texto, eram classificadas; a equipe anotava dados como nome da retranca (matéria), repórter, editoria, veículo (às vezes era exclusiva) e horário de envio. Em seguida, eram separadas e depois distribuídas manualmente (levadas pelos contínuos) até a redação. Algo bem distante do send de hoje…

Tom desafinado

Charge para o Jornalistas & Cia

Esta história é de Eduardo Ribeiro, diretor do J&Cia (a.k.a. meu chefe).

O episódio se deu em 1987. Eram tempos em que se celebravam os finais de ano com grandes eventos para jornalistas – lautos jantares, brindes de alto valor, shows e o que mais pudesse demonstrar prestígio junto a esses profissionais, desde sempre considerados formadores de opinião.

Eduardo organizou naquele ano um jantar no Olímpia (casa de shows na Lapa, em São Paulo, fechada já há alguns anos), cuja atração era ninguém menos do que Tom Jobim. Realmente, uma ousadia e gente saindo pelo ladrão atrás de convites.

Definido o número de convidados, partiu para a formação das mesas. Ainda sem grande intimidade com o setor, mesmo já estando com um ano e meio de casa, fez, como diriam os futebolistas, o “seu melhor” para acomodar as pessoas em pares com alguma afinidade – ao menos na minha visão. Eram mesas de quatro pessoas e eu tratei de juntar casais, colegas de redação, outros convidados, para evitar aquele desagradável tráfego de pessoas buscando lugar sem qualquer orientação. Não, isso lá não aconteceria. Eduardo recebia pessoalmente quem chegasse e encaminhava à mesa reservada.

No meio da muvuca, antes da apresentação do Tom, chega com a esposa o Ari, profissional que à época já era consagrado na cobertura setorial. Foi recebido efusivamente e Eduardo lhe diz o número da mesa. Não satisfeito, encheu o peito e falou: “Ah, Ari, você vai ficar ao lado de fulano de tal, assessor de comunicação da empresa tal”.

Ao organizar as mesas, na hora de escolher o lugar do Ari, pensou: “Será bacana pô-lo na mesma mesa deste assessor, pois trabalha numa empresa que sem dúvida alguma é uma das principais fontes de informação dele. Será legal eles ficarem juntos na festa. Vai ser demais!!”

De fato, foi uma festa inesquecível, brilhante mesmo. Tom Jobim esteve irrepreensível, como sempre, e não houve quem deixasse o Olímpia sem um suspiro.

Mas para chegar àquele momento Eduardo teve que ser de circo e administrar uma crise que poderia ter tomado proporções desastrosas e até custado o seu suado emprego. Ao falar ao Ari o nome da pessoa ao lado de quem se sentaria, ele ficou vermelho e azedou imediatamente. Ato contínuo disparou: “Na mesma mesa desse sujeito eu não sento. Isso é uma palhaçada! Ou você me coloca num outro lugar ou me retiro agora mesmo da festa!”.

O mundo veio abaixo. Eduardo cheguou a pensar que fosse brincadeira. Quando insinuou isso, Ari ficou ainda mais azedo, ameaçando ir embora. E o povo chegando e vendo a cena.

No fim das contas, conseguiu arranjar outro lugar, sabe lá Deus como, porque eram todos marcados e não houvera uma única desistência. Ari foi acomodado bem longe do seu desafeto, que nunca chegou a saber dessa história. Eduardo nunca soube o que houve entre eles para tal azedume, já que seguramente continuaram a se encontrar e a se relacionar profissionalmente pelas décadas seguintes.

Charges Jornalistas & Cia de julho

Seguem as charges que ainda não postei do mês de julho para o Jornalistas & Cia

O pé-frio do Toc-toc ataca novamente

Mais uma história sobre o Domício Pinheiro, falecido repórter-fotógrafo do Estadão que tinha fama de pé-frio e o apelido de Toc-toc.

A fama de Domício parece ter começado em 23 de novembro de 1958, em Bauru, dia em que a torcida do Noroeste levou o maior susto da história do time alvi-rubro. Na tarde daquele domingo o “Norusca” recebia o São Paulo, que levava à “cidade sem limites” duas das suas maiores estrelas, Mauro Ramos de Oliveira e Dino Sani, campeões mundiais pelo Brasil na Copa do Mundo da Suécia. O estádio, com grande parte de arquibancadas em madeira, chamava-se Alfredo de Castilho, homenagem ao ex-presidente da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e um dos fundadores do clube.

Não se sabe como tudo começou, mas aos 25 minutos do primeiro tempo a geral pegou fogo. Em pouco tempo a madeira ressequida estava em chamas, incêndio que consumiu as arquibancadas populares do “Alfredão” e ainda atingiu algumas casas nas proximidades. Ninguém morreu e apenas cinco pessoas ficaram feridas. O estádio foi reconstruído e reinaugurado no dia 5 de julho de 1960, com a vitória do Noroeste sobre o Palmeiras por 3 a 2. Só que agora com novo nome: Ubaldo de Medeiros. Ele só voltaria a se chamar Alfredo de Castilho em 1964, depois do golpe militar. Explica-se: Medeiros tinha sido partidário do governo João Goulart e oficialmente os milicos alegaram que a lei não permitia dar nomes de pessoas vivas a obras públicas.

Bom, quanto ao incêndio, o que Domício Pinheiro teve a ver com a história? É que fora escalado pelo Estadão para a cobertura do jogo. Pouco antes de a partida começar ele repetiu o mesmo ritual. Testando a aproximação da lente, disparou várias vezes em ângulos aleatórios. Ainda sem dar conta do que fotografava, captara o início das chamas que, com fúria impressionante e incontrolável, pouco depois provocou o desabamento do poleirão.

O incêndio foi o principal assunto da imprensa nos dias que se seguiram. Na segunda-feira à noite a PRF 3, TV Tupi-Difusora, exibiu imagens no seu telejornal, naquela época ainda capturadas em celuloide pelas câmeras cinematográficas de 16 mm utilizadas nas reportagens externas. E o Estadão deu ampla cobertura, reportagem ilustrada, claro, com as fotos do Toc-toc.

Ouro de tolo

Quando a Prefeitura de São Paulo abria o túnel sob o parque do Ibirapuera, na década de 1980, os ecologostas reagiram contra. Chegaram a embargar a obra na Justiça, por afirmarem que as águas do lago iriam inundar o túnel, o lençol freático seria drenado, as árvores iam morrer e outras sandices.

A Secretaria de Vias Públicas fez de tudo para mostrar que os argumentos eram errados. Deram o exemplo dos túneis sob o rio Sena, em Paris, sob o Hudson, em Nova York, um túnel japonês sob o mar para ligar duas ilhas, todos operando sem problemas, e chegaram a convocar os jornalistas para que acompanhassem o plantio de uma ala de ipês amarelos exatamente sobre o túnel, para provar que as árvores sobreviveriam – e sobreviveram, tanto que ainda hoje estão lá.

A liminar embargando a obra tinha acabado de ser suspensa, mas havia recursos na Justiça para paralisar tudo de novo quando um repórter do Estadão chegou à Sala de Imprensa com uma caixinha de filme 35 mm com três pedrinhas de ouro, que um operário mineiro achara no túnel.

Era uma curiosidade que valia uma notinha – ouro de aluvião comum nos leitos dos rios. E o túnel estava sendo aberto no antigo leito do córrego do Sapateiro. As pepitas foram levadas para o secretário Reynaldo de Barros e ele agarrou o paletó no encosto da cadeira e subiu para a sala do prefeito Jânio Quadros.

Jânio vislumbrou ali a possibilidade de acabar com a discussão ecológica. Sabendo como funcionava a imprensa, telefonou imediatamente para o presidente da República, José Sarney, e anunciou pomposamente que fora achado ouro no túnel do Ibirapuera.

A notícia, divulgada pela Assessoria da Presidência da República, voltou então para São Paulo, já transformada em manchete. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas, que nem examinou as três pepitas, menores do que grãos de arroz; informou que era comum encontrar ouro de aluvião no leito dos rios paulistas, lembrando que no passado houvera garimpo até na base do morro do Jaraguá e que o rendimento das bateias era sempre pouco, não valia a pena explorar.

Aluane Neto, repórter da Jovem Pan, fez uma grande matéria sobre a “descoberta”: contou que trabalhava na escavação um peão de Minas Gerais que bateara ouro no passado e apostara com um colega que acharia ouro se lavasse a areia que estava sendo tirada do buraco do futuro túnel.

A Pan entrevistou o peão, que contou que enchera de cascalho o capacete, lavara ali mesmo dentro do túnel e, achado o ouro, ganhou a aposta. Bastou isso para o Estadão abrir a matéria e o Jornal da Tarde ir atrás do “garimpeiro”, que saiu na primeira página. Todos os jornais “suitaram” a notícia, entrevistaram geólogos, calcularam o valor do ouro, “viajaram” na história.

A partir da “descoberta”, a discussão não era mais se o túnel ia secar o lago, mas se o ouro iria ser explorado, qual o tamanho da “jazida” – que, é claro, não existia – não houve novo embargo e o túnel foi concluído. Era tão necessário que logo passou a congestionar por excesso de veículos, pois sua continuação, o que seria o Boulevard Juscelino, teve suas obras aterradas pela gestão municipal que veio depois. Coisas da política.

Acrobata em perigo

As rádios do Sistema JB tinham uma ambiente descontraído e bem-humorado que rendeu diversas boas histórias como a narrada abaixo.

Certo dia, um mensageiro muito animado, resolveu plantar bananeira perto da porta que dava para a sala da diretora da Rádio JB, Tereza Brito. Nesse exato momento, a diretora abre a porta e, sem saber do gaiato de cabeça para baixo, logo atrás da porta, e pergunta: “Tudo tranquilo, pessoal?”. A redação inteira, prendendo a respiração e de olhos arregalados, diz quase ao mesmo tempo: “Tudo bem!”. Ela estranha e pergunta: “Tudo bem mesmo? Vocês estão esquisitos!” e fechou a porta.

Logo em seguida, o “acrobata” se recompôs, muito vermelho e com os olhos quase fora das órbitas, para delírio dos colegas, que caíram na gargalhada.

O fim da brincadeira e um novo golpe na praça

Charges para o Jornalistas & Cia

MAS QUE PUXA!

As coisas mudaram – e muito – nas redações. Os computadores substituíram as velhas Olivetti, as Remington marronzinhas. Os telefones de disco desapareceram e hoje se tornaram raridades, objetos de decoração. A moçada só conhece os de tecla. Os celulares nas mãos dos repórteres substituíram as fichas, os orelhões. Sem falar da acoplagem com os notebooks. A matéria vai direto para a página.

Numa redação quase ninguém nos dias atuais sabe o que é um telex e que os confetes daquelas fitas muitas vezes eram guardados para brincadeiras com os colegas. Deixados dentro dos guarda-chuvas, provocavam irritação nos que os abriam a caminho de casa ou do almoço e recebiam um banho de confetes.

E os cestos de lixo? Na redação do Estadão, no bairro do Limão, lá pelos anos 1980, os cestos eram de lata. Nem se falava de plástico. Tinha um jornalista que se deliciava em chutar as latas. Fazia barulho e assustava os colegas concentrados nas matérias.

O nome, Antero, de sobrenome Grecco. Filho de napolitanos e o mais napolitano dos verdadeiros que conheço, tinha a mania de chutar as latas. E a cada chute vinham gritos de susto, gritos dos demais colegas. A brincadeira era quase que diária. Sadia. Havia reclamações. Tinha quem chiava, dizia que o barulho atrapalhava. Mas nada impedia Antero de continuar com sua brincadeira. Chutando latas. Até que numa certa manhã substituíram as latas pelo plástico. Acabou o barulho. O som não era o mesmo. A surpresa também. Teve gente que aplaudiu. Minoria. Mas a brincadeira ficou na memória daqueles que faziam da redação um lugar também de alegria e não apenas de trabalho.

Outros tempos…

DEPOIS DO GOLPE DA BARRIGA…

O relato é de Luiz Roberto de Souza Queiroz.

Foi no final da década de 1960 e o Meninão, que pouca gente sabia, mas se chamava Álvaro Luiz Roberto Assumpção.

Certa manhã, Meninão cancelou o briefing matinal na casa dele, na rua Gironda, porque passara metade da noite em claro e, mais tarde, contou que no dia anterior fora para a balada, engraçou-se com uma garota da noite e foi com ela para um hotelzinho da “boca do luxo”.

Cumprido o propósito da esticada ao hotel, a menina disse que estava cansada e ia ficar dormindo um pouco mais. Meninão pegou o que pensou ser sua jaqueta negra no encosto de uma cadeira, jogou sobre um ombro e voltou para casa.

Às três da manhã o telefone toca e a garota, dizendo que ele era totalmente louco, explicou que estava na portaria do hotel, enrolada numa toalha, porque Meninão levara, em vez da jaqueta, o vestido, também negro, e ela não podia voltar para casa… de toalha.

Só quase às cinco da manhã uma amiga de boa vontade pegou o carro de um conhecido e foi até o Jardim Europa para que Meninão, da janela do sobrado, jogasse o vestido negro e recebesse, num belo arremesso à distância, a jaqueta que deixara no hotel.

Essa não foi a única história famosa do Meninão em hotéis. Embora hoje só lembrado no cardápio do Paribar, que tem um “filé à Meninão”, ele foi muito comentado em São Paulo quando, no final de outra noitada, mas com uma garota que tinha a esperança de algum dia se tornar “Senhora Meninão”, hospedou-se no Hotel Esplanada – o mesmo em que Oswald de Andrade tomou champanhe com Isadora Duncan e Rudyard Kipling escreveu a Canção do Dínamo, em homenagem à São Paulo da década de 20 (do século passado, por supuesto), que se industrializava febrilmente.

Com franqueza total, Meninão explicou que casamento não estava em seus planos. E quando, após o desideratum, caiu na merecida soneca que se seguia ao ato, a ex-quase-futura noiva, que era vingativa, pegou o sapato de salto agulha e com ele deu violentíssima pancada no saco do Meninão.

Os comentários a respeito correram no meio jornalístico por culpa do contínuo que, por uma semana, ia buscar o texto diário que Meninão, preso ao quarto do Hotel Esplanada, de pernas abertas e as partes pudendas extremamente inchadas, escrevia à mão para o jornal.