Nanquim, Som & Fúria # 05

China

China é um pernambucano retado de talentoso. Desses que merecem ser melhores descobertos por esse mundo sem-fim de boas intépretes brasileiras. Ele fez parte da saudosa banda Sheik Tosado que misturava rock e hardcore com maracatu e frevo. Depois se lançou na carreira solo com o EP “Um só” e, logo em seguida, lançou o ótimo “Simulacro”. Recentemente, virou VJ da MTV e lança agora uma belezura de segundo disco chamado “Moto Contínuo” que pode ser baixado de graça no site da Trama Virtual.

Carlão Mesquita e a edição de Esportes do Estadão

Charge para o Jornalistas & Cia

A efêmera Edição de Esportes do Estadão, lançada em 1964 para se contrapor à Gazeta Esportiva, foi, de fato, um ensaio para o lançamento do Jornal da Tarde, que a iria absorver.

A montagem de uma equipe de jornalistas comandada por Mino Carta, a capacitação do parque gráfico para rodar um segundo jornal no domingo (para cobrir os acontecimentos esportivos, que a então inexistência do Estadão na 2ª.feira tornava necessária), a organização de todo o esquema de distribuição e a inovação do texto consistiu na infraestrutura que facilitaria o lançamento do JT.

No momento em que a redação montava a primeira edição, entretanto, o “alvo” era justamente a Gazeta Esportiva e a pequena redação tinha como desafio rodar o jornal antes do concorrente. Isso acabou sendo possível e foi uma festa, com toda a equipe nas oficinas, Tão Gomes Pinto, Hamiltinho Almeida, Emilio Matsumoto, entre eles, e ganharam por pouco mais de uma hora.

Carlão Mesquita, que era o diretor da Edição de Esportes, ficou tão entusiasmado com essa pequena vitória que jogou dois pacotes do jornal ainda “quentinho” dentro de um jipe velho, chamou mais dois editores, foi para a avenida Cásper Líbero, estacionando diante da saída das rotativas do concorrente. Carlão saltou do jipe e, Edição de Esportes na mão, dirigiu-se à dúzia de jornaleiros que esperavam a saída da Esportiva, para vender na Augusta, na Paulista e na Boca do Luxo. Num comício improvisado, Carlão distribuiu exemplares do novo jornal e tentou convencer os jornaleiros de que fariam melhor negócio se nos domingos à tarde passassem a vender a Edição de Esportes, porque a Esportiva já era, garantia.

Num domingo de decisão de campeonato, Mino Carta resolveu que a Edição de Esportes tinha que sair a tempo de ser vendida na porta do estádio do Pacaembu, onde se disputava a final.

Era claramente impossível, mas a liderança do Mino fez a redação inteira topar o desafio e ninguém discutiu. Como o jogo parecia decidido no começo do segundo tempo, a primeira página foi fechada com o resultado parcial (felizmente mantido até o final da partida) e foi assumido o risco de rodar alguns milhares de exemplares com um primeiro clichê, ficando uma equipe a postos para trocar a manchete se o jogo mudasse.

Mais uma vez Carlão e alguns membros da redação pegaram o jipe e seguiram para estádio do Pacaembu. Carlão gritava as manchetes, contava que o jornal já vinha com o resultado do jogo, conseguiu ser cercado por torcedores que disputavam o jornal sem se incomodar com o troco, que é claro, jornaleiros neófitos, não tínhamos pensado em levar.

Nanquim, Som & Fúria # 04

Bon Iver

Depois do fim de sua banda anterior, do fim de seu relacionamento e de pegar mononucleose, Justin Vernon, líder da banda, decidiu fazer um retiro em sua remota cabana no estado americano de Wisconsin. Neste período, compôs sozinho todo o disco de estreia da banda intitulado “For Emma, Forever Ago”. Por pouco o disco quase não foi lançado, mas seu folk minimalista recebeu elogios rasgados da crítica, foi eleito um dos melhores álbuns de 2008 e teve músicas incluídas em alguns seriados como House e Grey’s Anatomy. Este ano lançou outro discaço intulado simplesmente de “Bon Iver” no qual ele expande muito seu som com influências da soul music e arranjos mais elaborados.

Confiram abaixo duas músicas de seu disco mais recente:

A interdição de Fausto Macedo

Charge para o Jornalistas & Cia

A história dessa semana é de Francisco Moacir Assunção Filho.

Quando começou a trabalhar no Estadão, lá pelos idos de 1999, Francisco foi apresentado a Fausto Macedo.

A mesa do Canalha (apelido de Fausto) era a mais bagunçada de todo o jornal. Ali, se acumulavam processos inteiros da Polícia Federal, investigações do Ministério Público, ações de toda ordem e documentos importantes. Era tanta coisa que a redação brincava dizendo que ele poderia usar as pilhas de documentos como casamatas em caso de um absolutamente improvável ataque aéreo contra o jornal ou, até, se esconder atrás caso o chefe quisesse passar mais uma missão além das que já tinha. O mais curioso é que ele, mesmo assim, encontrava tudo o que precisava, deixando todo mundo pasmo com a sua capacidade de (des)organização. Era tanta coisa que, certa vez, um diretor da Polícia Federal fez uma visita à sede do jornal e disse, brincando, que ia mandar apreender os documentos porque lá, com certeza, estavam as últimas operações da PF e eram papéis sigilosos.

Francisco resolveu então, brincar com o Canalha. Junto com um colega, desceu até o andar térreo do prédio do Estadão, onde funcionava o setor dos bombeiros civis e da manutenção, e pediu que lhe arrumassem um pouco daquela fita amarela e preta usada para, por exemplo, isolar áreas em obras. A desculpa é que precisava do material para fazer uma reforma no muro de casa e mantê-lo isolado dos vizinhos. Gentilmente, o rapaz me deu um pacote inteiro da fita.

Voltou à redação e passou a fita em volta da mesa e da cadeira do Fausto que, naturalmente, estava na rua atrás de mais uma matéria que certamente iria para a capa do jornal. Além disso, fez um cartaz, impresso no computador, no qual aparecia a frase “interditado pela Defesa Civil”. Colocou lá uma lei que, claro, não existia, mas era a número tal, fundos, como se fosse o endereço de uma casa, e deixou a fita lá, isolando toda a área onde ficava o Fausto, inclusive com os documentos oficiais. Colado na frente, o papel dizia que as pilhas eram uma ameaça à segurança e à saúde pública. Havia até risco de desabamento, como brincava o colega Daniel Bramatti: “Basta ver o que houve no Morro do Bumba”, dizia, em referência ao morro cujo desabamento causou uma tragédia em Niterói, no Rio de Janeiro. Bramatti sempre alegava que ele seria a primeira vítima do deslizamento da Encosta do Macedo, como batizou as pilhas de papéis do Fausto, já que se sentava em frente à mesa do colega repórter.

Pois bem, isolado e cercado o local, ficou observando, junto com outros colegas de redação, a reação das pessoas, enquanto esperava a “vítima”. Fez até várias fotos para mostrar o momento em que conseguimos, enfim, interditar a mesa do Canalha. Os colegas paravam, olhavam aquela cena e riam. Todos achavam engraçada a tal da interdição, até porque tinha gente que dizia que devia ter até ratos e baratas embaixo das pilhas de papel do Fausto, então devia ser tirado de circulação mesmo.

Teve gente que parou, fez algum comentário como “já não era sem tempo”, pensando que era de verdade, outros somente riam e passavam direto sem falar nada e até o então editor-chefe Marcelo Beraba (hoje na sucursal do Rio) foi, curioso, até a mesa do Canalha e sorriu muito ao ler o tal “decreto de interdição” da mesa dele. Estava impossível sentar-se lá, porque a cadeira também ficava na área de interdição a bem da saúde pública. Só faltava o próprio. Já eram umas 19h e nada do Fausto aparecer, para que pudessem ver a cara dele com a interdição.

Ligou para ele, dizendo que precisava que voltasse porque a chefia tinha passado uma matéria para os dois e tinham que combinar como fazer, depois inventou que havia uma pessoa o esperando na redação e nada. Outro colega telefonou para ele e disse que precisava contar algo pessoalmente e não adiantou. Passava das 21h, o jornal já fechado, e ele não aparecia. Os autores da arte, tiveram que ir embora porque já eram mais de 22h e chegamos à conclusão de que o Canalha não voltaria naquele dia e teríamos que adiar para o seguinte a rara oportunidade de ver a cara dele quando soubesse da interdição. Francisco tinha até um discurso pronto, no qual alegaria que não tive como impedir que a mesa fosse interditada, já que havia uma ordem expressa da Defesa Civil que não podia ser desobedecida.

Ao chegar de manhã, no dia seguinte, Francisco teve uma surpresa: a mesa do Fausto estava plenamente desinterditada, sem marca alguma do ocorrido no dia anterior, e a minha fechada e interditada, com a mesma fita amarela e preta. No cartaz preso na frente do computador que eu usava, uma frase escrita nos moldes da que deixamos no computador dele: “interditado por ordem da Secretaria de Saúde. Cachorro louco na área”, alertava, informando para os passantes terem muito cuidado com o tal bicho feroz (havia um desenho lhe representando).

Logo em seguida, o dito cidadão chegou, sorridente como sempre. Francisco perguntou se ele havia madrugado no jornal, já que eram pouco mais das 9 da manhã e haviam ficado até tarde o esperando para dar boas risadas. Ele contou, então, que sentira, pelo excesso de ligações, que havia um golpe em andamento e que o envolvia.

“Quando todo mundo começou a ligar, pedindo para eu voltar, percebi que era uma ‘cama de cabôco’ que estava armada para cima de mim”, explicou. Resolveu, por causa disso, adiar o regresso ao jornal, onde aportou por volta da meia-noite, quando não havia quase mais ninguém lá. Ao chegar, viu o cartaz e resolveu devolver a brincadeira, no que foi feliz. Francisco tentou tirar a fita, mas lhe convenceram a deixá-la lá até a hora do almoço, pelo menos.

Pequenos Heróis venceu o HQ Mix!

Olá pessoal!

É com muito orgulho que lhes informo que Pequenos Heróis ganhou o Troféu HQ Mix de Melhor Publicação Infanto-Juvenil!

Pra quem não sabe, Pequenos Heróis é um projeto do meu comparsa Estevão Ribeiro que homenageia super-heróis clássicos com histórias de crianças comuns. Eu co-editei e ilustrei uma das HQs do álbum. Além de mim, os talentosos Raphael Salimena, Jaum, Fernanda Chiella, Vítor Cafaggi, Emerson Lopes, Ricardo Leite, Dandi e Léo Finochi também participaram deste primeiro volume. A capa ficou por conta do espetacular Davi Calil.

Todo ano o HQ Mix homenageia um personagem diferente em sua estatueta. Desta vez foi o escolhido foi o impagável Geraldão, do cartunista Glauco que perdemos tragicamente ano passado. E, pelo visto, a estatueta terá partes móveis pra emular os grafismos de braços inquietos que Glauco tanto usava em seus personagens. Vejam abaixo.

A premiação será no dia 16 de setembro no Sesc Pompéia a partir das 19h30 na cidade de São Paulo. A lista com os demais vencedores pode ser conferida no blog da premiação.

O segundo volume de Pequenos Heróis está em produção e nele prestaremos tributo aos personagens da Marvel. Segue abaixo em primeira mão um preview da minha HQ pra essa edição.

Nanquim, Som & Fúria # 03

Dave Sitek

Dave Sitek  é guitarrista do TV on the Radio, uma belezura de banda que renderá outros retratos por aqui futuramente. A música abaixo é do álbum mais recente deles, Nine Types of Light, um dos melhores que saíram este ano até agora.

Além do TV on the Radio, o Sitek também é produtor de mão cheia. Produziu discos do Yeah Yeah Yeahs, TV on the Radio, Foals, Liars, Holly Miranda entre outros. Como se isso tudo não bastasse, ele ainda tem um projeto solo intitulado o Maximum Balloon, cujo disco (adivinhem) foi um dos meus preferidos do ano passado. Fiquem abaixo com a viciante ‘Tiger‘:

Jesus vai de picanha na Sexta Santa

Charge para o Jornalistas & Cia

Antes que algum católico fervoroso queira me crucificar com essa releitura nada ortodoxa da Última Ceia, leiam a história dessa semana por Valdir Sanches.

Era Sexta-Feira da Paixão, feriado. Valdir Sanches perfilava entre os repórteres de plantão na redação do Jornal da Tarde. O Zé Maria de Aquino, no comando da redação, nessa manhã, lhe vem com uma pauta.

– Sanches, como estará o movimento nas churrascarias hoje?

Sem entender a proposta, Valdir responde.

– Churrascarias no feriado…

E lhe encarou com um olhar de “e então?…”.

Ah! Churrascaria num dia em que não se come carne… Sim, boa pauta! Solicitada a companhia de um fotógrafo embarcaram na viatura da reportagem.

Logo na Avenida Sumaré havia uma churrascaria, não muito grande, mas bem ajeitada. Entraram. Umas tantas mesas ocupadas. Escolheram pelo jeito o entrevistável, que parecia comandar a mesa com mais dois homens, e o abordaram.

– Somos repórteres do Jornal da Tarde…
O homem parou de comer sua picanha. Explicaram a matéria, ele entendeu o espírito da coisa. Tinha uma pequena empresa no bairro, e estavam trabalhando, mesmo com o feriado. Os outros dois eram seus empregados.

Vai aquela conversa boba, comer carne hoje, Sexta-Feira Santa? Que que tem, é coisa antiga, poucos ainda ligam, etc. etc.. Fotos do homem com seu prato de carne. Para não inibir, nessas situações, perguntam o nome no fim da entrevista.

– Como é o seu nome?

– Jesus Barbalho.

Barbalho? Puxa, o governador Jader Barbalho estava na crista do noticiário, acusado de irregularidades. Conversaram um pouco sobre isso, Valdir fez mais duas ou três perguntas, e sairam.

Na rua, o fotógrafo pede o nome do entrevistado, para identificar a foto. Valdir lê suas anotações e cai duro. Jesus Barbalho. O homem se chama Jesus! Se impressionei tanto com o Barbalho que não gravou o Jesus!
Avaliou se era o caso de voltar à mesa e interromper novamente o almoço do bom Jesus. Mas não, o que eu tinha estava bom.

Foram a mais duas churrascarias, embora a matéria já estivesse pronta. Numa delas, pergunta o nome do entrevistado.

– Ricardo Teixeira.

E não tinha nenhuma ligação com futebol.

Valdir voltou à redação contando logo que havia entrevistado Jesus comendo carne. Redigiu a matéria. Foi para um copy altamente criativo. Deu o título, para o alto de página: Jesus vai de picanha na Sexta Santa.

A redação se empolga. Matéria bem-humorada, diferenciada, acima do noticiário de estradas e cemitérios. Na época, o editor de Geral era um rapaz com jeito de Superboy, puro dinamismo. Mas fora de tom para um jornal como o JT. Leu o título, ficou inseguro – e o vetou.

Em seu lugar entrou alguma coisa opaca, que matou a página e o espírito da matéria. O texto, com algum molho, foi mantido. Mas não era a mesma coisa.

Nanquim, Som & Fúria # 02

St. Vincent

O nome real dela é Annie Clark, é de Tulsa, Oklahoma, EUA. Já foi membro da banda The Polyphonic Spree e já lançou dois ótimos discos: Marry Me (2007) e Actor (2009). Seu nome artístico é uma referência ao Saint Vincent’s Catholic Medical Center onde o poeta Dylan Thomas faleceu em 1953. Como ela própria diz: “O lugar onde a poesia vai para morrer. Essa sou eu.”. St. Vincent tem um estilo muito próprio que consegue ser sereno e sombrio ao mesmo tempo, como seu olhões hipnóticos. É uma geniazinha que toca uma penca de instrumentos e, na minha opinião, é uma das melhores guitarristas em atividade.

Esta abaixo é de seu próximo disco, Strange Mercy, que será lançado agora em setembro.

Nanquim, Som & Fúria # 01

Vou começar a postar retratos  de músicos que aprecio.

O primeirão abaixo é o Flying Lotus, um DJ e produtor da Califórnia que tem realizado trabalhos com ninguém menos que a Erykah Badu e o Thom Yorke do Radiohead. Teve show dele,  acompanhado do baixista Thundercat, dia 20 agora no Sesc Belenzinho. Quem não foi perdeu um dos DJs mais chapantes que já vi ao vivo.

O cara tem parentesco com o John Coltrane e seu som traz o mesmo espírito do Free Jazz pra música eletrônica. Ano passado lançou um discaço intitulado Cosmogramma. O vídeo abaixo é de um single desse álbum:

O terror das cabines

Charge da semana para o Jornalistas & Cia

Pelos idos dos anos 1980, tempo da máquina de escrever nas redações, a equipe do Estadão/Jornal da Tarde/Agência Estado que ia fazer cobertura externa, e também os correspondentes e colaboradores, tinham apenas dois meios para enviar a matéria: o telex e o bom e velho telefone – o então moderno fax chegaria quase na virada para a década seguinte. Quem ligava de fora dispunha de um time de pessoas aptas a “pegar matéria”, conhecidas como “o pessoal da cabine”. Todos trabalhavam nas Comunicações, então chefiada por Alaur Antonio Martins.
A cabine era um espaço minúsculo, onde cabiam apenas um suporte para a máquina de escrever – nessa época já elétrica, para felicidade geral da nação –, uma cadeira e, no alto, um suporte para a bobina de papel, um rolo com oito vias carbonadas, que, após registrarem o texto, eram classificadas; a equipe anotava dados como nome da retranca (matéria), repórter, editoria, veículo (às vezes era exclusiva) e horário de envio. Em seguida, eram separadas e depois distribuídas manualmente (levadas pelos contínuos) até a redação. Algo bem distante do send de hoje…