Charges Jornalistas & Cia de julho

Seguem as charges que ainda não postei do mês de julho para o Jornalistas & Cia

O pé-frio do Toc-toc ataca novamente

Mais uma história sobre o Domício Pinheiro, falecido repórter-fotógrafo do Estadão que tinha fama de pé-frio e o apelido de Toc-toc.

A fama de Domício parece ter começado em 23 de novembro de 1958, em Bauru, dia em que a torcida do Noroeste levou o maior susto da história do time alvi-rubro. Na tarde daquele domingo o “Norusca” recebia o São Paulo, que levava à “cidade sem limites” duas das suas maiores estrelas, Mauro Ramos de Oliveira e Dino Sani, campeões mundiais pelo Brasil na Copa do Mundo da Suécia. O estádio, com grande parte de arquibancadas em madeira, chamava-se Alfredo de Castilho, homenagem ao ex-presidente da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil e um dos fundadores do clube.

Não se sabe como tudo começou, mas aos 25 minutos do primeiro tempo a geral pegou fogo. Em pouco tempo a madeira ressequida estava em chamas, incêndio que consumiu as arquibancadas populares do “Alfredão” e ainda atingiu algumas casas nas proximidades. Ninguém morreu e apenas cinco pessoas ficaram feridas. O estádio foi reconstruído e reinaugurado no dia 5 de julho de 1960, com a vitória do Noroeste sobre o Palmeiras por 3 a 2. Só que agora com novo nome: Ubaldo de Medeiros. Ele só voltaria a se chamar Alfredo de Castilho em 1964, depois do golpe militar. Explica-se: Medeiros tinha sido partidário do governo João Goulart e oficialmente os milicos alegaram que a lei não permitia dar nomes de pessoas vivas a obras públicas.

Bom, quanto ao incêndio, o que Domício Pinheiro teve a ver com a história? É que fora escalado pelo Estadão para a cobertura do jogo. Pouco antes de a partida começar ele repetiu o mesmo ritual. Testando a aproximação da lente, disparou várias vezes em ângulos aleatórios. Ainda sem dar conta do que fotografava, captara o início das chamas que, com fúria impressionante e incontrolável, pouco depois provocou o desabamento do poleirão.

O incêndio foi o principal assunto da imprensa nos dias que se seguiram. Na segunda-feira à noite a PRF 3, TV Tupi-Difusora, exibiu imagens no seu telejornal, naquela época ainda capturadas em celuloide pelas câmeras cinematográficas de 16 mm utilizadas nas reportagens externas. E o Estadão deu ampla cobertura, reportagem ilustrada, claro, com as fotos do Toc-toc.

Ouro de tolo

Quando a Prefeitura de São Paulo abria o túnel sob o parque do Ibirapuera, na década de 1980, os ecologostas reagiram contra. Chegaram a embargar a obra na Justiça, por afirmarem que as águas do lago iriam inundar o túnel, o lençol freático seria drenado, as árvores iam morrer e outras sandices.

A Secretaria de Vias Públicas fez de tudo para mostrar que os argumentos eram errados. Deram o exemplo dos túneis sob o rio Sena, em Paris, sob o Hudson, em Nova York, um túnel japonês sob o mar para ligar duas ilhas, todos operando sem problemas, e chegaram a convocar os jornalistas para que acompanhassem o plantio de uma ala de ipês amarelos exatamente sobre o túnel, para provar que as árvores sobreviveriam – e sobreviveram, tanto que ainda hoje estão lá.

A liminar embargando a obra tinha acabado de ser suspensa, mas havia recursos na Justiça para paralisar tudo de novo quando um repórter do Estadão chegou à Sala de Imprensa com uma caixinha de filme 35 mm com três pedrinhas de ouro, que um operário mineiro achara no túnel.

Era uma curiosidade que valia uma notinha – ouro de aluvião comum nos leitos dos rios. E o túnel estava sendo aberto no antigo leito do córrego do Sapateiro. As pepitas foram levadas para o secretário Reynaldo de Barros e ele agarrou o paletó no encosto da cadeira e subiu para a sala do prefeito Jânio Quadros.

Jânio vislumbrou ali a possibilidade de acabar com a discussão ecológica. Sabendo como funcionava a imprensa, telefonou imediatamente para o presidente da República, José Sarney, e anunciou pomposamente que fora achado ouro no túnel do Ibirapuera.

A notícia, divulgada pela Assessoria da Presidência da República, voltou então para São Paulo, já transformada em manchete. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas, que nem examinou as três pepitas, menores do que grãos de arroz; informou que era comum encontrar ouro de aluvião no leito dos rios paulistas, lembrando que no passado houvera garimpo até na base do morro do Jaraguá e que o rendimento das bateias era sempre pouco, não valia a pena explorar.

Aluane Neto, repórter da Jovem Pan, fez uma grande matéria sobre a “descoberta”: contou que trabalhava na escavação um peão de Minas Gerais que bateara ouro no passado e apostara com um colega que acharia ouro se lavasse a areia que estava sendo tirada do buraco do futuro túnel.

A Pan entrevistou o peão, que contou que enchera de cascalho o capacete, lavara ali mesmo dentro do túnel e, achado o ouro, ganhou a aposta. Bastou isso para o Estadão abrir a matéria e o Jornal da Tarde ir atrás do “garimpeiro”, que saiu na primeira página. Todos os jornais “suitaram” a notícia, entrevistaram geólogos, calcularam o valor do ouro, “viajaram” na história.

A partir da “descoberta”, a discussão não era mais se o túnel ia secar o lago, mas se o ouro iria ser explorado, qual o tamanho da “jazida” – que, é claro, não existia – não houve novo embargo e o túnel foi concluído. Era tão necessário que logo passou a congestionar por excesso de veículos, pois sua continuação, o que seria o Boulevard Juscelino, teve suas obras aterradas pela gestão municipal que veio depois. Coisas da política.

Acrobata em perigo

As rádios do Sistema JB tinham uma ambiente descontraído e bem-humorado que rendeu diversas boas histórias como a narrada abaixo.

Certo dia, um mensageiro muito animado, resolveu plantar bananeira perto da porta que dava para a sala da diretora da Rádio JB, Tereza Brito. Nesse exato momento, a diretora abre a porta e, sem saber do gaiato de cabeça para baixo, logo atrás da porta, e pergunta: “Tudo tranquilo, pessoal?”. A redação inteira, prendendo a respiração e de olhos arregalados, diz quase ao mesmo tempo: “Tudo bem!”. Ela estranha e pergunta: “Tudo bem mesmo? Vocês estão esquisitos!” e fechou a porta.

Logo em seguida, o “acrobata” se recompôs, muito vermelho e com os olhos quase fora das órbitas, para delírio dos colegas, que caíram na gargalhada.

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