16 anos de Blue Bus

Charge para o Jornalistas & Cia

A história desta semana é de Cristina Vaz de Carvalho, editora de J&Cia no Rio de Janeiro.

Nos anos 1990, Jornalistas&Cia, recém-criado com o nome de FaxMoagem, circulava com uma ou duas páginas, e ainda era distribuído por fax. Na época, a chamada grande imprensa ainda não cogitava montar uma redação para a mídia digital. O máximo de avanço que existia era a digitalização do acervo. Mais tarde, passaram a veicular o noticiário em texto corrido, como fez o Jornal do Brasil, com pioneirismo, nos bons tempos.

Porém, alguns visionários veiculavam por conta própria notícias exclusivamente na web. Julio Hungria, de Blue Bus (www.bluebus.com.br), inicialmente dirigido a leitores do mercado publicitário, foi um deles. Abriu os trabalhos como uma BBS (aos muito jovens: um software que permitia ao usuário postar e baixar dados, e trocar mensagens com outros usuários, geralmente por conexão telefônica).

Aos poucos, apareceram redações de bom tamanho, produzindo notícias que não se destinavam a serem impressas em papel, nem veiculadas em áudio ou vídeo. Marcos Sá Corrêa, que montou e dirigiu o NO. (Notícia e Opinião, a ser lido como “no ponto”) foi um pioneiro. Mas, no noticiário do J&Cia, jornalistas que viessem de redações tradicionais eram encaixados nas notas como tal.

Certa vez, em conversa com Julio Hungria, Cristina comentou um fato qualquer, que seria, para ela, uma novidade. Julio protestou: “Mas vocês já publicaram isso na sua seção de internet”. Seção de internet? Haveria, no escasso espaço físico da publicação em que eu trabalhava, uma seção que eu não conhecesse?

Ligou então para seu editor, Eduardo Ribeiro, contou a história, e perguntou: tinham mesmo essa seção? Eduardo respondeu de imediato: “Se o Julio diz que temos, é porque temos”. A partir de então, o J&Cia passou a separar as notícias da web na seção que hoje leva o título de Sites, blogs e afins.

Blue Bus celebra, no dia 29 de novembro, 16 anos em circulação. É amigo de fé e irmão camarada do J&Cia, desde então – ambos nascidos muito próximos, na mesma primavera.

A lição de Geraldo Nunes

Charge para o Memórias da Redação que agora sai não apenas no Jornalistas & Cia como também no o Portal dos Jornalistas.

A história abaixo é contada por Luiz Roberto de Souza Queiroz, o Bebeto.

“Já lá se vão alguns anos, desde quando a madrinha dos cegos Dorina Nowill me pediu que entrevistasse deficientes de sucesso. Fazia parte da campanha cujo objetivo era tirar de casa, onde viviam enfurnados, as centenas de milhares de cegos que não se arriscavam a buscar a chamada inclusão social.

Corporativista, como todo jornalista, procurei um “coleguinha” com restrição de mobilidade, Geraldo Nunes, da Rádio Eldorado que, durante meia hora contou, nos estúdios da Fundação Dorina, como sua mãe sofrera ao ouvir dos médicos que o filho jamais seria capaz de andar, como ele resolveu e conseguiu desmentir os médicos com muito esforço, dos erros e acertos, até que um dia se tornou independente e capaz de andar sozinho.

Contou também da dificuldade para estudar, já que até hoje caminha com duas muletas, dos problemas que teve com as mãos, problemáticas, de como foi difícil, baixo e trôpego, se impor nas coletivas até que descobriu que sua voz forte supria a falta de agilidade. Encantou a todos contando como valorizou a voz que o tornou conhecido, como se sujeitou a fazer os programas de rádio da madrugada, problema menor, porque nunca dormiu bem.

Geraldinho explicou que estuda permanentemente, especializando-se na história de São Paulo, de como se tornou o “Repórter Aéreo”, a bordo do helicóptero no qual sempre teve dificuldade para subir e com o qual caiu na Marginal do Tietê, sem que esse acidente lhe tirasse a vontade de voar.

Foi uma história emocionante e ele ensinou aos milhares de cegos que nos ouviram que eles são pessoas como as outras, que os direitos são os mesmos, apesar da deficiência e que essa, no fundo, é só um motivo a mais para lutar e vencer.

Passaram os anos e em meados de outubro entrevistei duas cegas, “cobaias” do primeiro curso brasileiro de Especialização Olfativa. A ideia é que, sem enxergar e, portanto, sem distrações como a cor do perfume, o formato da embalagem, o cego pode “tornar-se todo nariz”. Dominar os aromas a ponto de identificar em cada aula 50 cheiros diferentes, de temperos a produtos químicos, passando por alimentos e bebidas, capacitando-se ao longo de um ano de estudo muito puxado a trabalhar com as misturas de álcool, essências e demais produtos que, misturados cuidadosamente, compõem os perfumes os quais, combinando-se com o odor de cada pele, vão deixar a mulher com um cheiro único e irresistível.

A entrevista interessava muito, porque a especialidade é uma das poucas em que os cegos tem melhores condições de vencer do que nós outros, que eles chamam de videntes. E a prova é que, embora ainda estudando, as alunas do curso já são sondadas para empregos na indústria de cosméticos.

Como sempre, me aproximei das deficientes visuais e me apresentei: “Eu sou o Bebeto, e mais que uma entrevista nós vamos é conversar sobre o curso, porque o escolheram, o que estão achando…”. E fui cortado por uma delas que disse não ser necessária apresentação alguma: “Eu me lembro bem da sua voz e da entrevista maravilhosa que você fez com o Geraldo Nunes, da Rádio Eldorado, que nos ensinou a lutar e a não desistir nunca”.

A deficiente visual disse isso e, desinibida, foi usando a bengala-longa para avançar pelo corredor acústico e estreito até o minúsculo estúdio. Fiquei um pouco para trás pensando que, tantos anos depois, eu tivera a oportunidade de ver nas duas moças o fruto da árvore cuja semente o Geraldinho plantou. E pensei que é muito bom ser repórter e viver momentos assim.”

Pena Branca o Barra Pesada

Charge para o Jornalistas & Cia

A história dessa semana sobre o repórter investigativo Octávio Ribeiro é narrada por Dirceu Martins Pio. Confiram abaixo:

“Um internauta leu Barra Pesada, comprado num sebo, e hoje faz uma pergunta desesperada pela web: “Alguém tem notícias de Octávio Ribeiro?”. Vários outros internautas fazem comentários sobre a pergunta, mas sem conseguir respondê-la, até que um deles posta a informação, lacônica, seca, com cheiro de impiedade: “Octávio Ribeiro morreu em julho de 1986”. E fim. É irônico isso: existem pouquíssimas notícias sobre um homem que passou a vida a produzir notícias.

Ai das pessoas que viveram e morreram na fase da pré-internet. Suas façanhas, seu talento, seus ensinamentos, por mais extraordinários que tenham sido, serão enterrados junto com seus ossos. A memória de adolescentes e jovens, hoje, é a própria web.

Descubro por acaso, outro dia, que o jornalista Octávio Ribeiro, o Pena Branca (tinha esse apelido por causa de uma mecha de cabelo branco que surgiu no alto de sua testa desde tenra idade) virou nome de rua em São Paulo. Trata-se de uma ruazinha, meio perdida no mapa da cidade, ali na Vila Bela Vista, no bairro Cachoeirinha. É um dos casos típicos em que a homenagem fica aquém do homenageado. Octávio Ribeiro merecia ter dado nome à mais importante avenida de São Paulo ou do Rio de Janeiro. Ou à praça mais grandiosa.

Ninguém para reeditar o seu deslumbrante Barra Pesada; ninguém para postar uma biografia competente na Wikipédia; ninguém para emular o seu talento de melhor repórter policial que o Brasil já conheceu. Dá para concluir pelas páginas dos jornais: Octávio Ribeiro está morto, definitivamente morto.

Quem o conheceu em vida ou leu Barra Pesada – que ainda pode ser encontrado em alguns sebos ao preço de R$ 9 – vai descobrir o quanto são falhas as teorias levantadas pelo malcozido debate em torno da qualidade do jornalismo. Uma delas diz que o jornalista tem de ser altamente intelectualizado, um devorador de livros. Octávio Ribeiro era um homem inteligente, arguto, mas simples, pouco letrado. Era para ter sido bancário no Rio de Janeiro, onde nasceu, mas derivou para o jornalismo quase por obra do acaso. Era movido pela perspicácia e pela curiosidade – estas, sim, características exigíveis de todo jornalista que se preze.

Entrou para desvendar e resolver praticamente todas as grandes histórias policiais dos anos sessenta e setenta. Fez muita falta no levantamento do Mensalão do Governo Lula e também em casos como o do assassinato do PC Farias (1996); do prefeito de Campinas, Toninho dos Santos (2001); do prefeito de Santo André, Celso Daniel (2002); ou ainda da pequena Isabela Nardone. São casos que permanecem envoltos em mistério talvez por falta de policiais – ou repórteres – verdadeiramente investigativos.

Ao republicar a longa entrevista que Octávio Ribeiro concedeu ao Pasquim, Barra Pesada reconstitui, com muitos detalhes, a sua trajetória de repórter policial. Barra Pesada tem, contudo, poucas informações sobre sua técnica de apuração, que era magnífica. No início da década de 1980, quando ele já havia abandonado as redações para transformar-se numa espécie de repórter cigano, eu me encontrei com ele em Curitiba, onde permaneceu por alguns meses hospedado na casa de amigos e ansioso por encontrar algum assunto em que pudesse atuar. Eu mesmo indiquei a ele o caso Darlene, uma jovem professora de origem alemã  assassinada a pedradas num terreno baldio de Curitiba, no alto de um morro.

O assassínio de Darlene ocorrera três anos antes da chegada de Octávio Ribeiro à cidade. A polícia havia prendido e acusado como autor do crime um homem baixinho, atarracado, morador de uma favela nas proximidades do local. Chamava-se Lira (nem me lembro o sobrenome). Confessou o crime na fase de inquérito e negou na Justiça sob alegação de que havia sido torturado pela polícia. Foi condenado. Eu chefiava a sucursal do Estado de São Paulo e do Jornal da Tarde no Paraná e havíamos tentado investigar o caso, mas desistimos porque os jornais não se interessaram pela história. De qualquer modo, havíamos percebido que o caso fora muito mal apurado pela imprensa local e havia vestígios de manipulação pela polícia.

Octávio Ribeiro interessou-se pelo caso Darlene, fez um acordo com uma editora local para produzir uma revista e se jogou de cabeça na apuração. Acompanhei de perto toda ela, como colaborador e admirador de Octávio Ribeiro e ao lado de outro jornalista, Mauro Bastos, também interessado em contribuir com o levantamento. Eu e Mauro somos, enfim, testemunhas de que ao longo da investigação do caso Darlene Octávio Ribeiro realizou inúmeras façanhas inimagináveis por qualquer repórter da época.

Começou pela leitura minuciosa do processo e não demorou muito para identificar várias falhas no laudo pericial, realizado por dois legistas formados pela Universidade Federal do Paraná. Sua primeira façanha foi reunir os dois jovens legistas com aquele que havia sido um de seus professores na universidade, o qual não apenas confirmou as falhas apontadas por Octávio Ribeiro como passou todo o encontro a dar bronca atrás de bronca em seus dois ex-alunos, sem se importar com o constrangimento de estarem na frente também de um repórter investigativo.

Depois de demolir o laudo pericial, Octávio Ribeiro foi visitar o local do crime, no topo de um morro a menos de quatro quilômetros do centro de Curitiba. Reparou que havia lá em baixo, nas margens da rodovia BR 116, um núcleo urbano – lojas de comércio e uma indústria de baterias. Desceu até lá, obteve os primeiros depoimentos que combatiam, com clareza, a culpabilidade de Lira: várias pessoas do núcleo assistiram ao crime a uma distância inferior a mil metros. Viram quando o assassino desceu do morro e tomou um ônibus ali à beira da BR 116: era um jovem magro, claro, franzino, cabelo cortado “escovinha”, quer dizer, um perfil oposto ao do condenado, que era moreno, baixo, forte, barrigudo.

Ao negar a autoria, Lira alegara na Justiça que no dia em que o crime foi praticado encontrava-se em Morretes, cidade litorânea, onde participava junto com mais de 40 trabalhadores da limpeza de um terreno. Pena Branca fez os cálculos: devido à distância, não haveria tempo de Lira subir para Curitiba, matar a professora e voltar para Morretes. O crime fora praticado por volta do meio-dia. Entendeu, portanto, que se fosse possível comprovar que Lira trabalhava em Morretes no dia do crime ele seria automaticamente inocentado.

Viajou então para Morretes. Em poucas horas, descobriu que houve sim um mutirão para limpeza de uma fazenda no período em que o crime fora praticado. A comida servida aos trabalhadores era preparada na área urbana e levada em marmitas até a frente de trabalho. Seu raciocínio: a cozinheira deveria ter uma relação de todos os homens e, quase com certeza, conferia nome por nome antes de despachar as marmitas, enviadas na contagem exata. Procurou pela cozinheira. Soube que havia se mudado para Curitiba. Conseguiu o endereço, voltou para Curitiba e descobriu que a mulher deixara seus pertences num comodozinho aos fundos de uma residência e viajara para o município da Lapa. Viajou para a Lapa (a 120 km de Curitiba), encontrou finalmente a cozinheira. Havia sim um caderno de anotações, mas que havia sido deixado no “quartinho” de Curitiba. Trouxe-a no carro a Curitiba e obteve suas anotações: o nome de Lira estava lá. Lira recebeu sua marmita no dia do crime, de modo que, sob nenhuma hipótese, poderia ter almoçado em Morretes, subido de ônibus para Curitiba, cometido o crime na hora do almoço e voltado para se incorporar à frente de trabalho.

Pena Branca entrevistou a psicóloga de Lira no presídio, que também estava convencida da inocência de seu paciente. Conseguiu revelar também que Lira foi um simples bode expiatório de um delegado de polícia com o qual, inclusive, fizera um acordo ao ser preso: uma vez condenado, tudo seria feito para que obtivesse liberdade condicional em poucos anos e após deixar a cadeia receberia de presente uma chácara em Paranaguá onde poderia passar toda a vida na tranquilidade.

As inúmeras provas da inocência de Lira não foram suficientes para reabrir o caso, que sempre esteve envolvido por “pressão oculta”, disparada, provavelmente, pelo verdadeiro autor do crime ou por sua família. A própria editora que imprimiu a revista sobre o caso fraudou o acordo com Octávio Ribeiro e pôs em circulação menos de 100 exemplares dos milhares com os quais havia se comprometido.

Publicada a revista, Pena Branca partiu para outras cidades e outras aventuras. Soube que fez a primeira entrevista com o jogador Tostão (depois de haver abandonado o futebol, por causa de um acidente nos olhos, Tostão se recusava a falar à imprensa); que esteve na Itália investigando um caso que envolvia a Máfia. Voltava de uma viagem à Amazônia onde descobrira várias usinas de coca implantadas em território brasileiro quando teve de ser internado em hospital do Rio de Janeiro. Teve um tumor de pulmão que se espalhou pelos demais órgãos vitais. De Curitiba, falei com ele por telefone a poucos dias de sua morte. Tivemos o seguinte diálogo:

– Coragem, rapaz, você é forte e com certeza vai escapar dessa.

– Não sei não, meu amigo, estou com vários tumores corroendo meu corpo por dentro.

Não consegui ir ao seu enterro. Jamais poderia imaginar que suas lições de jornalismo pudessem ser esquecidas em tão pouco tempo.”

Nanquim, Som & Fúria # 09

Marcelo Jeneci

Uma das melhores revelações da música brasileira atual, seu álbum de estreia veio cheio de expectativas por conta de sua experiência tocando, compondo e sendo gravado por grandes nomes da música brasileira. É de sua autoria, por exemplo, os hits “Amado” de Vanessa da Mata e “Longe” de Arnaldo Antunes. E “Feito pra acabar”, seu disco de estreia, não só fez jus à expectativa como surpreendeu como foi um dos melhores lançamentos de 2010. Merecidamente recebeu diversas indicações ao VMB (que parece ter voltado a se interessar mais por música do que popularidade em si) de 2011. Sem mais delongas curtam o som do cara:

Rio Comicon

Novamente, foi uma delícia visitar o Rio de Janeiro e participar de um evento desses. Revi muitos colega, conheci gente nova e é sempre bom ter contato com o público.

Eu só participei de dois dias do evento, sexta e sábado. Os pontos altos desta vez foram as exposições sobre o Guido Crepax, com direito a um vestido inspirado na Valentina confeccionado por sua filha e a exposição com uma penca de originais do inigualável Will Eisner. Havia ainda uma estátua do Spirit modelada pelo própro Eisner. Simplesmente emocionante pra quem é super fã do Eisner como este que vos fala.

Segundo a organização do evento, o saldo foi positivo e o público dos 4 dias foi estimado em 15 mil pessoas, apesar de ter coincidindo com as datas das provas do ENEM. Infelizmente, nem tudo foram flores o evento me pareceu um pouco mais vazio que o ano passado nos dias em que fui… Alguns dos problemas da edição passada se repetiram e outros surgiram: a estrutura precária da Estação Leopoldina em relação a banheiros (só havia banheiros químicos dessa vez), a localização (um pouco isolado e sem muita coisa ao redor, pra quem ficava no evento o dia inteiro não havia muita opção para almoçar, por exemplo), o preço do ingresso aumentou (de dez para vinte reais), divulgação em cima da hora (o que atrapalha bastante pro pessoal de outros estados se programar, mas mesmo assim conseguiram um bom espaço na mídia), as mesas de autógrafos ficaram um tanto escondidas no estande da Livraria da Travessa.

Esqueci de levar minha câmera e, por isso, estou com poucas fotos da Rio Comicon deste ano.


No estande do 4Mundo ao lado de Will, Cadu Simões, Ana Carolina Recalde, Daniel Esteves, Caio Majado e Giorgio Galli.


Desafio de desenhistas no estande do 4Mundo.

O fim e o recomeço do Notícias Populares

Charge para o Jornalistas & Cia

A história dessa semana é de Marcos Sergio Silva que foi editor do finado Notícias Populares.

O Notícias Populares era conhecido por suas manchetes nada sutis. Seu slogan era “Nada mais que a verdade” e trouxe um estilo de jornalismo sem pudores que causou muita polêmica no meio jornalístico. Desprezado por alguns pelo tom apelativo e adorado por outros pelo bom humor, chegava até a inventar casos como o célebre “Bebê-diabo” ou o desaparecimento de Roberto Carlos. Circulou em São Paulo de 1963 até ser interrompido no ano 2001, quando o Grupo Folha decidiu migrar seu jornalismo popular no Agora São Paulo, mas com um estilo mais sissudo e sem o mesmo descaramento que marcava o Notícias Populares.

Hoje em dia, o Meia-Hora é considerado um herdeiro deste tipo de jornalismo no Brasil.

Rio Comicon aí vamos nós!

A EntreQuadros – Círculo Completo chegou da gráfica essa semana. Vejam como ficou bonitona!

A edição será lançada na Rio Comicon que começa hoje na Estação Leopoldina na cidade do Rio De Janeiro! Amanhã chego na Cidade Maravilhosa e estarei presente no evento de sexta a domingo.

Além de vários nomes importantes do quadrinho nacional, este ano a Rio Comicon conta com convidados internacionais de peso como o lendário Chris Claremont – roteirista da fase mais clássica dos X-Men – Peter Kuper, Liniers, Junko Mizuno e Ludovic Debeurme.

Alguns amigos também estarão com material novo como o Daniel Esteves em parceria com o Will, meu xará Mario Cau e a nova dupla nacional de “gêmeos prodígio” Marcelo e Magno Costa (ainda ouviremos muito desses dois podem ter certeza).

Imperdível!

Maiores informações sobre o evento: www.riocomicon.com.br

Nanquim, Som & Fúria # 08

Céu

Uma das principais vozes do Brasil e do mundo atualmente, Céu tem o nome bem apropriado para sua pessoa e sua música. Sua fusão de música popular brasileira com elementos de trip hop, afrobeat, jazz, R&B e hip hop ganhou o mundo e abriu portas pra uma nova safra de cantoras e artistas que tem tirado a poeira da MPB. Lançou dois discos, um auto-intitulado em 2005, que chegou a ser vendido em lojas da Starbucks, e o “Vagarosa” em 2009, uma pérola da música brasileira contemporânea. Além disso faz parte do Sonantes, junto com integrantes do Nação Zumbi e fez participações especiais em discos de artistas como Guizado e Otto.

Céu serviu de inspiração para uma das protagonistas de minha nova HQ, a EntreQuadros – Círculo Completo. Maiores informações em nossa página no Facebook: http://www.facebook.com/EntreQuadros

Narrando o inenarrável

Charges para o Jornalistas & Cia

Duas charges seguidas sobre o mesmo assunto: a infame foto da Lílian Ramos, primeira dama de ocasião do Itamar Franco, que desfilou sem roupas íntimas na Sapucaí no carnaval de 1994 e provocou a chamada “Crise da Calcinha”. Lançou moda muito antes de Britney Spears, vejam bem…

O caso veio à tona em relatos de  Nora Gonzalez e Carlos Oliveira, que trabalhavam no Estadão na época, e contam sobre a dúvida do jornal em publicar ou não a foto com a dita cuja da primeira dama exposta.O Estadão, no fim das contas, decidiu ser educado e não publicou a dita fot, mas a mesma saiu em praticamente todos os jornais no dia seguinte…

A pequena indomável

Charge para o Jornalistas & Cia

História enviada por Plínio Vicente da Silva.

Em meados de 1985 Plínio a conheceu. Tinha um olhar nervoso e inquieto, gestos irrequietos, próprios dos que estão permanentemente em busca de algo que não sabem exatamente o que é. Essa era a menininha de então, que circulava entre os adultos como se não existissem barreiras e obstáculos capazes de detê-la e de impedi-la de se libertar do ambiente em que vivia.

Não adiantavam os ralhos da mãe, nem mesmo as ameaças de fazê-la prisioneira no seu quarto. Ela reagia a tudo isso com uma energia extraordinária para uma criança de tão pouca idade, tamanha a intensidade do vigor físico e da agilidade mental.

Era alguém predestinado a se fazer pela genialidade, exclusiva de poucos, cuja dimensão e alcance transformam os escolhidos em lendas e os eleitos em figuras eternas e inesquecíveis.

Os anos se passaram, a vida seguiu em frente e, como é inevitável, as pessoas envelheceram. A menina ranzinza, obedecendo aos ditames do tempo, igualmente foi se transformando, chegando à adolescência. Contudo, com o mesmo vigor e igual impaciência trazidos do passado. Foi essa energia, muitas vezes incompreendida, que a fez romper os grilhões que prendiam sua alma em Boa Vista. Ganhou o mundo e embrenhou-se pelo emaranhado dos caminhos que havia de escolher, pois neles estavam as respostas de que precisava para confrontar as dúvidas que carregava consigo. Valente, corajosa, destemida, as foi desvendando uma a uma até que, finalmente, presenteou sua alma indomável com a liberdade que ela implorava bem lá atrás, ainda na primeira infância.

Foi estudar fotografia na Universidade Nacional da Costa Rica. Lá mesmo aprendeu desenho e depois, de volta a Roraima, entregou-se ao conhecimento da cultura e dos costumes indígenas. Ao poucos foi vencendo as procelas no mar revolto, sua própria vida, e atravessou o oceano que separa o perguntar e o questionar do descobrir e do entender.

Com o passar dos anos se transformou numa sensível pesquisadora, que se lançara em busca de respostas para os segredos que encontrara no universo. Capacidade essa que a fez uma espécie de sacerdotisa da natureza, capaz de decodificar para o olhar dos seres comuns os detalhes mais intrincados dos mistérios que se escondem sob o manto das árvores, da profundeza das águas dos rios e do mais recôndito recanto das almas nativas.

O tempo se foi, os anos percorreram o calendário e a menina, que um dia tive nos braços na vã tentativa de enxugar as lágrimas teimosas, pranto inconformado brotando dos seus olhinhos inocentes, conquistou definitivamente sua liberdade. Não no lavrado e nem nas florestas, mas bem longe, do outro lado do mundo.

Dias atrás, Plínio a reencontrou pela internet. Ana Lúcia Mendina guarda ainda as feições da menina que conhecera certa noite na casa de sua mãe, Vera Regina Guedes, advogada e uma das melhores e mais confiáveis fontes que conquistei como jornalista do norte do Brasil. O olhar continua penetrante, o sorriso segue sendo um misto de perguntas e respostas. Entretanto, o que mais encantou a Plínio, na soma das emoções que esse reencontro lhe provocou, foi saber pelo seu blog – anamendina.blogspot.com – que, além de fotógrafa competente, ela é hoje uma respeitada artista plástica, vivendo bem longe, lá na Oceania.

Depois de morar na Austrália, conhecer os aborígenes e inspirar-se com seus usos, costumes e cultura, mora hoje em Tauranga, uma ilha da região norte da Nova Zelândia. Suas pinturas vêm recebendo elogios quer pela beleza plástica, quer pela criatividade, quer pelo olhar impar que tem para a natureza e os seus elementos. Ao falar de sua exposição, que recebeu o título de Brazilis, o jornal The Wekend Sun destacou que os 14 trabalhos de Ana – que trazem também cenas do imaginário popular urbano tupiniquim –, exploram os diferentes aspectos da cultura brasileira, mas em especial da cultura dos povos da Amazônia. Ao mesmo tempo em que introduz em seus quadros símbolos neozelandeses, ela os usa para conectar a iconografia aborígene do povo maori com aquela que conheceu na convivência com índios do Norte.

Feliz é aquele que no curso da vida tem o privilégio, como eu tive, de ver nascer a genialidade num ser humano como Ana Lúcia Mendina. Sou ainda mais feliz por ter testemunhado, há mais de 26 anos, o alvorecer de um espírito que jamais se rendeu ao óbvio e à mesmice e que, com grandeza, atravessou continentes e travou inúmeras batalhas em busca do seu destino. Mas basta debruçar o olhar em suas telas para a gente perceber que a menina irrequieta continua inquieta. Inquietude que, certamente, é quase toda ela alimentada pelos temores e os tremores que lhe causam os estragos que a humanidade tem feito na natureza, no meio ambiente e no habitat em que os índios ainda conseguem sobreviver no seio das florestas acima e abaixo da linha do Equador.

Ana continua sendo a mesma menina de alma indomável. É o que se pode testemunhar ao visitar o site www.aucklandmuseum.com, espaço sagrado das artes na Nova Zelândia que deu abrigo não só à exposição de seus quadros, mas também à palestra e exibição de documentário em que ela fala apaixonadamente da Amazônia, da sua beleza, dos seus índios e da sua luta pela sobrevivência.