23º Troféu HQMix

Saiu a lista final dos indicados aos 23º Troféu HQMix. E Pequenos Heróis marcou presença com 3 indicações: Publicação Infanto-Juvenil, Roteirista Revelação (Estevão Ribeiro) e Desenhista Revelação (Raphael Salimena)!

Os parceiros de crime em Pequenos Heróis, Estevão Ribeiro e Raphael Salimena, ainda marcam presença em outras categorias: Publicação de Tira e Wecomic. A Balão Editorial, atual casa da EntreQuadros, também marcou presença em Projeto Editorial pela Nós – Dream Sequence do meu xará Mario Cau.

A concorrência está acirrada. Confiram abaixo a lista dos indicados:

OS INDICADOS AO 23º TROFÉU HQMIX
(na cédula digital constará o item “outros” após os sete indicados pela Comissão)

Adaptação para os Quadrinhos
Clássicos da Literatura Disney
Classics Illustrated – Alice Através do Espelho (HQM)
Demônios (Peirópolis)
Histórias de Poe (ARX)
Memórias de um Sargento de Milícias (Ática)
Os Sertões – A Luta (Desiderata )
Triste Fim de Policarpo Quaresma (Ática)

Chargista
Alpino – Yahoo.net
Angeli – Folha de S.Paulo/SP
Chico Caruso – O Globo/RJ
Dálcio – Correio Popular/SP
Duke – O Tempo e Super Notícia/MG
Jean – Folha de S.Paulo/SP
Pelicano – Bom Dia/SP

Desenhista Nacional
César Lobo (Triste Fim de Policarpo Quaresma)
Danilo Beyruth (Bando de Dois)
Guazzelli (Demônios, A Escrava Isaura)
Laerte (Muchacha)
Laudo Ferreira Jr. (Yeshuah)
Rafael Coutinho (Cachalote, Drink)
Roger Cruz (Xampu – Lovely Losers)

Desenhista Estrangeiro
Dave McKean (Mr. Punch)
David Small (Cicratizes)
Gilbert Hernandez (Birdland, uma Aventura dos Sentidos)
John Romita Jr. (Kick-Ass, Reinado Sombrio)
Kevin O’Neill (A Liga Extraordinária – Século: 1910)
P. Craig Russel (Coraline)
Pia Guerra (Y – O Último Homem)

Destaque internacional
Ed Benes (Action Comics / Birds of Prey / Green Lantern / Blackest Night)
Fábio Moon e Gabriel Bá (Daytripper)
Luke Ross (Captain America)
Mike Deodato (Secret Avengers / New Avengers)
Rafael Albuquerque (American Vampire)
Rafael Grampá (Strange Tales II)
Wander Antunes (Toute la Poussière du Chemin)

Edição Especial Nacional
As Aventuras de Sir Charles Mogadon & do Conde Euphates de Açafrão (Terceiro Nome)
Bando de Dois (Zarabatana)
Cachalote (Cia das Letras)
Loucas de Amor (Ideias a Granel)
Peixe Peludo (Conrad)
Yeshuah (Devir)
Xampu – Lovely Losers (Devir)

Edição Especial Estrangeira
As Incríveis Aventuras do Escapista (Devir)
Cicatrizes (Leya/Barba Negra)
Fracasso de Público – Desencontro de Titãs (Gal)
Mr. Punch (Conrad)
Notas sobre Gaza (Cia das Letras)
676 Aparições de Killoffer (Leya/Barba Negra)
Ranxerox (Conrad)

Editora
Companhia das Letras/Quadrinhos na Cia
Conrad
Devir
Gal
Leya/Barba Negra
Panini
Zarabatana

Livro teórico
Almanaque de Desenhos Animados (Paulo Gustavo Pereira – Matrix)
Bienvenido – Um passeio pelos quadrinhos argentinos (Paulo Ramos – Zarabatana)
Ciência em Quadrinhos – Imagem e texto em cartilhas educativas (Márcia Mendonça – Bagaço)
Elementos do Estilo Mangá (João Henrique Lopes Souza – Independente)
Entes Perpétuos – O Universo Onírico de Neil Gaiman (Heitor Pitombo – Kalaco)
Maria Erótica e o Clamor do Sexo – Imprensa, Pornografia, Comunismo e Censura na Ditadura Militar – 1964-1985 – Guerra dos Gibis 2 (Gonçalo Junior – Peixe Grande)
O Quadro nos Quadrinhos (Fabio Luiz Carneiro Mourilhe Silva – Multifoco)

Mídia sobre Quadrinhos
Banca de Quadrinhos
Gibizada
Gibi Rasgado
HQManiacs
Impulso HQ
Mundo dos Super-Heróis
Universo HQ

Novo Talento – Desenhista
Caeto (Memória de Elefante)
Felipe Massafera (Jambocks)
João Montanaro (Cócegas no Raciocínio)
Jonatas Tobias (Cogumelos ao Entardecer)
Raphael Salimena (Pequenos Heróis)
Rodrigo Bueno (Peixe Peludo)
Thaís dos Anjos (Assim Falava Zaratustra)

Novo Talento – Roteirista
Antonio Vicente Seraphim Pietroforte (Mentahalos)
Daniel Galera (Cachalote)
Estevão Ribeiro (Pequenos Heróis, Hector e Afonso – Os Passarinhos)
Jonatas Tobias (Cogumelos ao Entardecer)
Nathan Cornes (Zeladores)
Rafael Moralez (Peixe Peludo)
Thaís dos Anjos (Assim Falava Zaratustra)

Produção em Outras Linguagens
A Super Comédia Canibal (show de comédia)
Kick-Ass: Quebrando Tudo (filme)
Laerte (mini-documentário)
Malditos Cartunistas (documentário)
Mulheres Alteradas (teatro)
Scott Pilgrim Contra o Mundo (filme)
Super-heróis – O Poderoso Livro Pop-up (livro)

Projeto Editorial
Calendário Pindura 2011 (Independente)
Frankenstein e Vinte Mil Léguas Submarinas (Publifolha)
Joaquim Nabuco – A Voz da Abolição (Massangana)
NÓS – Dream Sequence Revisited (Balão Editorial)
Quadrinhos Sacanas – O Catecismo Brasileiro no Traço dos Herdeiros de Carlos Zéfiro (Peixe Grande)
Skechtbook – As Páginas Desconhecidas do Processo Criativo (POP)
Zélio – 50 Anos de uma Aventura Visual (Barbosa Lima)

Publicação de Aventura/Terror/Ficção
Batman Anual (Panini)
Invasão dos Mortos (Gal Editora)
J. Kendall – Aventuras de uma Criminóloga (Mythos)
Mágico Vento (Mythos)
O que Aconteceu ao Homem Mais Rápido do Mundo? (Gal Editora)
Starcraft – Linha de Frente (Conrad)
Vertigo (Panini)

Publicação de Clássico
Ao Coração da Tempestade (Cia das Letras)
Fawcett (Devir)
Flash Gordon (Kalaco)
Metrópolis (New Pop)
Peanuts Completo (L&PM)
Ranxerox (Conrad)
Tarzan – A Origem do Homem-Macaco e Outras Histórias (Devir)

Publicação de Charges
Avenida Brasil – Enfim um País Sério (Paulo Caruso – Devir/Jacaranda)
Catálogo Craques do Cartum na Copa (vários autores – Centro Cultural Banco do Brasil)
Cócegas no Raciocínio (João Montanaro – Garimpo)
Gibi do Glauco (Glauco – Folha de S.Paulo)
Lula Lá Parte 2 – A Sucessão (Chico Caruso – Devir/Jacaranda)
Retroscópio (Santiago – L&PM)
Ziraldo n’O Pasquim (Ziraldo – Globo)

Publicação de Cartuns
Catálogo Craques do Cartum na Copa (vários autores – Centro Cultural Banco do Brasil)
Cócegas no Raciocínio (João Montanaro – Garimpo)
Graça na Praça (Uberti – L&PM)
Que Presente Inapresentável (Quino – Martins Fontes)
Tibica, o Defensor da Ecologia (Canini – Saraiva)
Tulípio (Eduardo Rodrigues e Paulo Stoker – Independente)
Ziraldo n’O Pasquim (Ziraldo – Globo)

Publicação de Tira
As Cobras – Antologia Definitiva (Luís Fernando Verissimo – Objetiva)
Barô Barata (Jarbas – Independente)
Hector e Afonso – Os Passarinhos (Estevão Ribeiro – Balão Editorial)
Macanudo 3 (Liniers – Zarabatana)
Níquel Náusea – A Vaca Foi pro Brejo… (Fernando Gonsales – Devir)
Os Sousa (Mauricio de Sousa – L&PM)
Tiras de Letras (vários autores – Virgo)

Publicação Erótica
Birdland – Uma Aventura dos Sentidos (Arte Sequencial)
Bórgia 3 – As Chamas da Fogueira (Conrad)
Clic (Conrad)
Kama Sutra (Conrad)
Kiki de Montparnasse (Record)
Menthalos (Annablume)
Quadrinhos Sacanas – O Catecismo Brasileiro (Peixe Grande)

Publicação Independente de Autor
Almanaque Meteoro (Roberto Guedes)
Anita Garibaldi – O Nascimento de uma Heroína (Custódio)
Crônicas da Pindahyba (Hilton Mercadante)
O Cabra (Flávio Luiz)
Pieces (Mario Cau)
Rafe (Thiago Spyked)
Underground – Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo (Pedro Franz)

Publicação Independente de Grupo
Café Espacial
Golden Shower
JAM
Revista A3 Quadrinhos
Samba
Subversos
Quadrix Comics

Publicação Independente Edição Única (one-shot)
Afrohq: História e Cultura Afro-Brasileira e Africana em Quadrinhos (Danielle Jaimes e Roberta Cirne)
As Aventuras de Sir Charles Magadom & do Conde Euphrates de Açafrão (Artur Matuck, Carlos Matuck e Rubens Matuck)
Drink (Rafael Coutinho)
Atelier (Fábio Moon e Gabriel Bá)
Lucas da Vila de Sant’Anna da Feira (Marcos Franco, Marcelo Lima e Hélcio Rogério)
Taxi (Gustavo Duarte)
Um Outro Pastoreio (Indio San e dMart)

Publicação infanto-juvenil
Banzo e Benito (Zarabatana)
Disney Big (Abril)
Monica y su Pandilla e Monica’s Gang (Panini)
Mumin (Conrad)
Pequenos Heróis (Devir)
Pequeno Vampiro e o Kung Fu (Jorge Zahar Editor)
Turma da Mônica Jovem (Panini)

Publicação Mix
Golden Shower (Independente)
JAM (Independente)
MSP+50, Mauricio de Souza por mais 50 Artistas (Panini)
Quebra-Queixo, a Banda Desenhada (Independente)
Quebra-Queixo, Technorama (Quanta/Devir)
Samba (Independente)
Vertigo (Panini)

Roteirista Nacional
André Diniz (O Quilombo Orum Aiê)
Alex Mir (O Mistério da Mula-sem-Cabeça)
Danilo Beyruth (Bando de Dois)
Laudo Ferreira Jr. (Yeshuah)
Luiz Antonio Aguiar (Triste Fim de Policarpo Quaresma)
Roger Cruz (Xampu – Lovely Losers)
Wellington Srbek (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Roteirista Estrangeiro
Alan Moore (A Liga Extraordinária – Século: 1910)
Alejandro Jodorowsky (Bórgia)
Brian K. Vaughan (Os Escapistas, Y – O Último Homem, Ex-Machina)
Joe Sacco (Notas sobre Gaza)
José-Louis Bocquet (Kiki de Montparnasse)
Paul Jenkins (Guerra Civil Especial)
Warren Ellis (Red, Transmetropolitan)

Tira Nacional
Amely (Pryscilla)
A Vida com Logan (Flávio Soares)
Níquel Náusea (Fernando Gonsales)
Ocre (Gilmar)
Piratas do Tietê (Laerte)
Quase Nada (Fábio Moon e Gabriel Bá)
Sic (Orlandeli)

Web Quadrinhos
Dinamite & Raio Laser (Samuel Fonseca)
Edbar (Lucio)
Linha do Trem (Raphael Salimena)
Nerdson (Kalisson Bezerra)
Notas sobre o Fim (Pedro Franz)
O Diário de Virgínia (Cátia Ana)
Zeladores (Mr. Guache e Nathan Cornes)

O troca-troca

Charge para o Jornalistas & Cia

Paulo Vieira Lima tem muitos predicados na extensa folha de serviços prestados ao jornalismo, em diversos meios de comunicação. Um filósofo, que sempre está pensando em novas ideias, defendendo princípios dignos. Mas que ninguém cobre muita organização ou encha de disciplina ao nosso Buda Preto, apelido que ganhou graças à barriga protuberante e o jeitão de guru.

No início da Rádio CBN era um entra e sai intenso da redação, na época com 60 pessoas só em São Paulo. Sem muito espaço para colocar suas bugigangas, José Nello Marques às vezes deixava o paletó em cima da mesma peça usada pelo Paulo, na cadeira que este ocupava na produção da pauta. Além de apresentador da CBN no período da tarde, Zé era correspondente do serviço em português da Voz da América, a emissora do governo norte-americano que transmite em várias línguas. Zé Nello ou trazia o boletim escrito à mão ou sentava numa mesa e redigia ali, na bucha.

Paulo sempre foi de fazer várias atividades ao mesmo tempo e vivia apressado, com os compromissos atrasados. Num desses dias, Zé Nello deixou o paletó na cadeira do nosso Buda Preto, que, na pressa, catou o primeiro casaco que viu, jogou nas costas e já saiu em quinta marcha, soltando um rastro de poeira pelos cascos, em direção ao metrô. Com seu jeitão manso, Zé volta pra redação e vai até a tal cadeira-cabide à procura do texto para fazer o boletim da Voz da América.

– Cadê meu paletó? –, pergunta ao chefe de Reportagem ali à frente (antes do computador, formavam-se umas ilhas de duas, três ou quatro mesas, um jornalista trabalhando de frente para o outro).

– Aí! Não é esse? –, sugere o interlocutor.

– Não, não é esse de jeito nenhum! –, devolve Zé.

– Ah, então esse é o do Paulo e ele já foi embora –, confirma o chefe.

Zé Nello ficou louco da vida, bufando, mas não podia fazer nada. O telefone celular nessa época também estava empacado, por uma briga na Justiça entre fornecedores de equipamentos e a estatal Telesp, que atrasou em alguns anos a chegada dos primeiros tijolões a São Paulo. O Rio de Janeiro ganhou a primazia de inaugurar o sistema. Zé espumou, espumou, mas não tinha o que fazer.

Àquela altura, Paulo já estava quase cochilando num trem do metrô, em direção à estação Sé. Já ia subindo a escada rolante, quando enfiou a mão no bolso do paletó e notou um objeto estranho por ali. Seria um pacote de dólares do pagamento da VOA, que o Zé sacara em verdinhas, enquanto no bolso do Buda Preto só existiam carnês para pagar, alguns vencidos? Não, era o texto do pobre Zé Nello, que teve que rabiscar alguns dados às pressas, para fazer a entrada ao vivo na VOA. Ainda bem que o mais ilustre cidadão de Garça é bom de improviso. Já narrou ene vezes saída do paulistano em véspera de feriadão, velório de gente famosa, crimes leves e bárbaros, concurso de miss, desfile de carnaval no sambódromo – na tevê isso é cansativo, mas ainda dá para agüentar; no rádio, é tortura até para o porteiro do turno da madrugada.

Paulo olha para trás, confere que não tem qualquer conhecido subindo a escada rolante, chega lá em cima, dá meia volta e embarca na escada de volta, para pegar o primeiro trem no retorno a Santa Cecília. Vai no primeiro carro, para ter a sensação de que chegará mais rápido. Chega esbaforido, já com algumas gotas de suor na testa. É, não é mole não, empurrar aquela pança da estação até ao Sistema Globo de Rádio, dois quarteirões adiante e ainda subir mais um lance de escada, até chegar na redação. Cansado de botar a cara na janela para ver se via pelo menos um vulto do surrupiador de paletó, Zé Nello parte para o banheiro. Sorte, hein, Paulão?

Paulo entra apressado, dá uma panorâmica no ambiente, vai até à cadeira e destroca os paletós, rapidamente, antes que o Zé Nelo aparecesse do nada e, no calor da emoção, desse uma espinafrada no amigo. Alguém tenta puxar o Paulo para a defesa de alguma tese de última hora, mas o Buda Preto já engatando uma terceira, diz que está atrasado e sai mais veloz que o Papaléguas, para não ver nem a sombra do dono daquele paletó levado por engano, na distração. Até hoje Zé deve estar confuso com o sumiço e a aparição repentina do casaco, com todos os pertences.

Os gestos do Senhor

Charge para o Jornalistas & Cia

História enviada por Rui Pizarro.

Nos anos 1980, no Rio de Janeiro, um dos programas de rádio mais famosos era o Encontro Marcado, apresentado por Dom Marcos Barbosa, diariamente às 18h, na JB AM.

Certo dia houve uma troca de operador, o que ocasionou um episódio muito engraçado a quem assistia à transmissão do programa no estúdio da rádio.

O monge, que além de debater vários assuntos convidava o ouvinte a meditar e a orar, fez um gesto de “baixar som” para o operador que estava na mesa de áudio. Ou seja, o retorno de som que ele recebia do outro lado do estúdio estava alto demais e Dom Marcos fez um sinal com o braço para o operador baixar o volume.

O técnico, muito sério e compenetrado, e talvez se achando no meio de uma missa, não se fez de rogado: parou o que estava fazendo e se ajoelhou no estúdio, por entender que Dom Marcos pedira isso a ele.

Verdão fervoroso e nostalgia no ar

Charges para o Jornalistas & Cia

Essa foi da semana passada sobre um ascensorista fanático torcedor do Palmeiras que trabalhava no Estadão. Coitado de quem falasse mal do verdão pra dele ..

Já a seguinte é para um texto um tanto nostálgico do Nei Duclós sobre as diferenças entre as redações atuais e as de antigamente.

Revista Nil

A NIL é uma revista nova de Brasília sobre cultura e fez uma matéria bem bacana sobre o meu trabalho e o coletivo do 4Mundo.

Clique na imagem para ampliar.

A NIL tem distribuição gratuita e pode ser encontrada nestes pontos indicados no site da própria revista.

Nem Rolex nem Givenchy

Charge para o Jornalistas & Cia

Era 1980. Na Redação do Estado, algumas semanas após a morte de Alfred Hitchcock (29 de abril), nada indicava um dia diferente. O pessoal da edição que ia chegando conversava com os incumbidos da produção sobre o cardápio do dia. Passava das 4 da tarde quando os mais antigos, entre eles Hélio Damante e Eduardo Martins, fizeram uma rodinha em torno de um visitante. Não demorou para que a roda crescesse e muitos ficassem a ouvir as histórias de Sebastian. Era assim que tratavam aquele jovem senhor, pouco entrado nos 40 anos, estatura baixa e conversa convincente.

Sebastian havia prestado serviços de motorista à empresa anos antes e dizia, agora, que tinha amigos no aeroporto de Congonhas e muita coisa para oferecer. Eram tripulantes que traziam de rádio para automóvel a bebidas; perfume também havia e alguns relógios de marca. Tudo por um preço imbatível, que ele se dispunha a ir buscar. Só não poderia receber cheque em pagamento, tinha de ser dinheiro, tinha de ser cash.

Por duas horas Sebastian recebeu as encomendas e o dinheiro; algumas vezes ainda ligou para alguém, perguntando se havia o produto pedido. Sempre havia. Pouco depois das 6 da tarde, com a lista de pedidos, Sebastian disse que precisaria de um carro para levá-lo a Congonhas e trazê-lo de volta com a carga. Lula, o prestimoso motorista de uma Kombi, veterano do Estadão, foi escalado.

Partiram.

Por volta das 8 da noite ligou Lula para a Redação. Estava na entrada do Conjunto Nacional pela Alameda Santos já fazia quase duas horas à espera de Sebastian. Que lhe pedira, tão logo deixaram o prédio do jornal na Marginal Tietê, para passar por ali, onde iria apanhar a chave do depósito em Congonhas.

Sebastian nunca mais foi visto. Escafedeu-se com as economias de uns e os sonhos de um rádio ou um relógico novo de outros.

Aulas

Charges para o Jornalistas & Cia

Luiz Roberto de Souza Queiroz dirigia o Departamento de Jornalismo da Faap e, na dificuldade de ensinar as agruras de ser repórter, levou dois profissionais de sucesso – um fotógrafo e o velha-guarda José Stachini – para que conversassem com os estudantes.

O fotógrafo ganhara um prêmio pela fotografia do incêndio do Joelma, primeira página do Estadão, e, modesto, baixinho, contou para a garotada que ao chegar ao local do incêndio, um prédio com dezenas de andares, notou que todos os fotógrafos escolhiam a mesma imagem: os bombeiros trabalhando ou os helicópteros que tentavam pousar no alto do edifício e balançavam por causa dos rolos de fumaça quente.

“Eu precisava de uma foto diferente e examinei o prédio até achar um rapaz preso num andar alto, quase pendurado na janela, o fogo chegando perto, por trás”, disse. “Vi que o garoto ia morrer, os andares acima e abaixo dele estavam em chamas e me apoiei bem, estudei a luz, o contraste entre a figura humana, o fogo e a brancura do prédio e fiquei esperando”.

“Não deu outra”, disse o fotógrafo. “Cinco minutos e o rapaz não aguentou o calor, subiu na janela, hesitou um pouco e se atirou no ar, para a morte certa. E eu cliquei, cliquei e cliquei, com a certeza de que tinha feito uma foto única, tinha a primeira página garantida”.

Ele então olhou para a classe e contou que, de repente, no meio da euforia de ter feito a grande imagem, percebeu: “Tinha ficado torcendo para um ser humano morrer, para eu fazer a foto; e então sentei na calçada e chorei, chorei, nem sei quanto tempo chorei”.

O fotógrafo era muito sensível e contou que a lembrança do fato não o largava, não tinha mais condições de continuar fotografando. A última notícia que tive dele é que havia aberto um mercadinho, no bairro em que morava.

O outro depoimento, do Stachini, era sobre a República Dominicana, quando as tropas do coronel Caamaño foram derrotadas pelos EUA, lá por 1966. O Stachini foi o enviado do Estado e, no caminho, comprou um dos primeiros gravadores portáteis, um tijolão de muito respeito.

Ele contou que as tropas rebeldes lhe disseram que encontraria o porta-voz que procurava para a prometida entrevista se avançasse uns cem metros além de determinada trincheira. O que não ele sabia é que, ao avançar, deixaria a “terra de ninguém” para se aproximar das posições dos marines, que, evidentemente, abriram fogo contra ele.

Apavorado, Stachini se escondeu numa cratera de bomba e, enquanto as balas zuniam sobre sua cabeça, ligou o gravador e deu o depoimento que, com muito chiado, os estudantes da Faap ouviram. Ele dizia que ia ser encontrado morto e que os rebeldes tinham dado um jeito dele ser baleado pelos americanos, para que levassem a culpa, que na realidade não tinham. Fora induzido a provocá-los, sem saber, para criar um incidente internacional. Findo o depoimento, porém, ele ainda escondido, o tiroteio diminuiu e, tendo mais algum tempo, Stachini começou a se despedir dos colegas da redação.Lembrou uma por uma as grandes coberturas que fez com os amigos, pois na época o Rossi [Clóvis], chefe de Reportagem, mandava três ou quatro repórteres esgotarem assuntos como a visita do príncipe japonês Akihito, a vinda de De Gaulle ao Brasil e, já então, as enchentes. E, do seu buraco de bomba, recordava as discussões sobre lead, as brigas para conseguir mais espaço para as matérias, as noitadas com chopinho. Despediu-se de cada amigo e, como a morte não chegou (uma patrulha acabou resgatando o jornalista), voltou com o gravador e a fita.

Papelão

Charge para o Jornalistas & Cia

Certa vez, a polícia convocou a imprensa carioca para mostrar uma apreensão de drogas. Era uma apreensão pequena, de interesse apenas local, mas todos os jornais do Rio foram para lá. Reunida a plateia, entra na sala o delegado responsável pelo feito e olha a mesa que fora preparada para as fotos. Irritado, mas sereno, o delegado diz que, sobre a mesa, tinha posto 23 papelotes de cocaína. Ao chegar, viu que havia ali apenas 22. Disse ainda que não gostaria de submeter seus convidados ao constrangimento de serem revistados. Sairia da sala, apagaria a luz e, quando voltasse, queria ver na mesa o que faltava. Assim fez e ao voltar e de novo acender a luz, surpresa!: viu, na mesa, 24 papelotes. Alguém não se limitou a devolver o que tirou, mas deu de presente o que trouxe da rua.

O Spaguetti

Charge para o Jornalistas & Cia

O ano era 1968. O local: Páteo do Colégio – ou, como se escreve hoje, Pátio do Colégio –, região central de São Paulo, bem pertinho da praça da Sé. Foca, promovido de contínuo a repórter, passsei a ser plantonista do jornal Notícias Populares, cercado de jornalistas experientes e que trabalhavam para Última Hora, Diário da Noite, Folha de S.Paulo, Estadão, Diário Popular. O local era a Sala da Imprensa do plantão da Central de Polícia, por onde tinham passado grandes jornalistas da área policial, inclusive o mestre dos ilustradores e criador de Mônica, Cascão e companhia, Maurício de Sousa. Na Central chegavam todas as ocorrências policiais do centro e dos bairros próximos.

Sílvio Nunes, o Spaghetti, era um dos setoristas. Magro, bigodinho fino, meio surdo, sempre de terno e gravata, Spaghetti era respeitado por delegados e investigadores. Trabalhava para o Diário da Noite. Tratava a todos como “caro carissimo” e de hora em hora fazia sua ronda por telefone, ligando para os principais distritos policiais da cidade, pronto-socorros de Hospital das Clínicas e Hospital Municipal, em busca de notícias. Ouvia com dificuldade, mas não admitia.

– Boa noite! Aqui é da Sala da Imprensa da Central. Alguma coisa boa por ai? – perguntava o velho jornalista.

Coisa boa para o Spaghetti e outros setoristas era assassinato, tiroteio com morte, grandes assaltos. Sanpaulino fanático, estava sempre com o rádio colado ao ouvido nos dias de jogos. Quando anotava nomes e endereços de locais de crimes, ou detalhes dos chamados BOs (Boletins de Ocorrências), os colegas sempre checavam porque ele errava na maioiria das vezes. Mas todos faziam o trabalho de rechecagem com satisfação. Spaghetti era uma figura maravilhosa.

Noite de 4ª.feira, Pacaembu lotado, jogavam São Paulo e Portuguesa. A Sala da Imprensa ficava no final do corredor do prédio onde fora a casa da Marquesa de Santos. Sentado à mesa que pertencia aos Diários, cigarrinho na mão direita e rádinho na esquerda, Spaghetti ouvia atentamente o jogo. Eu, no outro canto da sala, falava ao telefone, apurando a prisão de um grupo de arrombadores de cofres.

O delegado de plantão, Israel Alves dos Santos Sobrinho, que era conhecido como doutor Gravatinha, porque usava com seus ternos escuros somente gravata borboleta, aproximou-se da porta e perguntou ao Spaghetti:

– O Zaqueu já chegou?

Zaqueu é Zaqueu Sofia, repórter da Jovem Pan, em atividade até hoje.

Spaghetti não ouviu. O delegado gritou e chamou a atenção do setorista, voltando a perguntar sobre o Zaqueu. A resposta veio rápida:

– Dois a zero para o São Paulo.

O delegado virou as costas e foi embora.

Esse era o Spaghetti, figura lendária da reportagem policial dos anos 60 aos 80. Deixou saudades.