Nanquim, Som & Fúria #25

Gaby Amarantos

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Gaby já vinha sendo apontada há algum tempo como a nova revelação na música brasileira. Agora com o lançamento de seu primeiro disco, que já emplacou uma música na abertura de uma novela de sucesso, só se fala dela. Goste ou não de seu estilo, é impossível não apreciar sua honestidade e sua autenticidade. No atual cenário pop nacional, tão infestado de fórmulas prontas, de cópias baratas e de letras tão imbecilizantes e machistas, o brilho e a energia dessa embaixatriz da música paraense são um verdadeiro e farto oásis.

Para quem torce o nariz pro tecnobrega, lembre-se de que blues, soul, reagge, jazz, samba, hip hop e outros tantos gêneros musicais um dia também já foram considerados como música de pobre. O trabalho de Gaby também não se restringe a um único gênero, mas também passeia por outros ritmos paraenses, pela música eletrônica e até mesmo pelo sertanejo. Uma salada musical que sairia bem indigesta em mãos menos talentosas. Já aqueles que não tem esse tipo de preconceito, vão se deliciar com uma música genuinamente brasileira pra lá de divertida e que, felizmente, passa longe dessa canastrice emburrecedora que nos assola atualmente.

Saudade de mim

Charge para o Jornalistas & Cia

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O texto dessa semana é a praticamente história de vida do Plínio Vicente da Silva, um dos mais assíduos colaboradores do Memórias da Redação. Segue abaixo o texto dele na íntegra:

“Ao acordar hoje, 29 de abril, completando 70 anos de uma longa existência, dei-me o privilégio de me entregar por mais um tempo ao aconchego das cobertas. Um pouco também pela indolência provocada pela chuva que caía mansa, transformando as goteiras que desciam das telhas num instrumento de percussão, ressoando batuques ritmados sobre os vasos de plantas da minha mulher.

Enquanto os papagaios faziam explodir gritos onomatopaicos na mangueira bem ao lado do meu quarto, meus olhos, fixados no forro de PVC, atravessaram a barreira branca e encontraram do outro lado um horizonte em que pude ver desfilando um pouco do meu passado. Do recente ao mais longínquo.

Foi quando senti saudade de mim. Pelo muito do que vivi e que aqui me permito relembrar algumas passagens. Escolhi algumas poucas, mas todas com ingredientes que me ligaram, de alguma forma, à profissão que, sem qualquer outro ganho, a não ser meu salário, me permitiu construir um futuro, criar uma família e educar os filhos, fazer dois deles doutores com o meu “paitrocinio”, um aqui e outro em terras de Espanha. Não lhes deixarei como herança bens materiais, além de uma casa modesta e um carro usado. Mas tenho orgulho por vê-los, como homens feitos, seguindo os exemplos que lhes pude legar, todos assentados em virtudes como a preservação da dignidade, a pregação intransigente da retidão de caráter, a defesa incondicional da honestidade e a prática permanente de valores éticos.

Sei que este espaço é reservado a memórias dos tempos em que vivemos nas redações. Mas hoje me reservo o direito de escrever estas linhas para falar da saudade que sinto do tempo que passou. Afinal, já se vão 70 anos e, como disse Mário de Andrade, nessa idade eu tenho muito mais passado do que poderei ter futuro. Todavia, ainda quero e espero viver o suficiente para, enquanto me aceitarem, contar histórias, memórias que aos poucos tenho registrado neste J&Cia.

Minha saudade começa lá longe, bem longe, no tempo e no espaço, na pequena vila de Guatapará, às margens do rio Moji Guaçu, região de Ribeirão Preto. Eu era um molequinho franzino, deformado pela polio, que andava feito um sapo com as duas pernas em cima do pescoço. Mas isso não me impedia de todos os dias, menos às segundas-feiras, ir comprar o jornal para o meu pai, missão que eu cumpria com muita seriedade para tão pouca idade.

Para eu poder me locomover ganhei uma charretezinha de madeira, com rodas de bicicleta, puxada por um bodezinho preto, de nome Capeta. Assim, quando dava 2 da tarde eu percorria dois quilômetros por uma estrada de terra e ficava na esplanada à espera do comboio e do jornaleiro, que chegavam à estação sempre por volta das 2 e 40. O ritual era sempre o mesmo: Faustino – esse era o nome dele – descia do trem, entregava-me o Estadão, recebia as moedas e desaparecia vagão adentro. Não sem antes recomendar um abraço aos meus pais. Ele era meu primo, filho de tia Matilda, irmã mais velha de minha mãe, como ela nascida em Duisburg.

Era um ofício que me dava satisfação ainda maior quando, no final da tarde, meu pai se sentava na escada da frente da nossa casa, numa pequena fazenda onde era empregado, e abria o jornal. À medida que, com sua voz claudicante de pouco saber do oficio da leitura, recitava em voz alta cada manchete e cada notícia, eu também ia lendo o diário. Jamais me esqueci das suas palavras, conselho que me segue até hoje e que procuro transmitir a todos os jovens estudantes de Comunicação: quem quiser aprender a escrever tem primeiro que aprender a ler. Foi assim, lá pelos nove anos, que decidi: aprenderia a ler, aprenderia a escrever e um dia seria jornalista do Estadão. E fui…

Tenho saudade de mim quando fiz minha primeira reportagem, aos 13 anos, transmitindo por telefone um texto rascunhado numa folha de caderno. A um desconhecido do outro lado da linha, na redação de O Diário de Ribeirão Preto, contei, com a voz embargada pelo pranto incontido, o suicídio de Idalina de Oliveira, que não suportou ser estuprada por um oleiro brutamontes e atirou-se nas águas do Mogi Guaçu. Foi uma noticia dolorosa, que transmiti misturando a frieza do jornalista com a emoção de ser humano, pois tínhamos a mesma idade, estudávamos juntos e éramos mais que amigos, quase irmãos.

Tenho saudade de mim quando voltei para Guatapará depois de vários anos internado na Santa Casa de São Paulo. O que minha pobre mãe, roceira e analfabeta, só conseguiu esmolando ajuda financeira a muita gente e por conta e obra de dona Leonor Mendes de Barros, que atendeu a um apelo feito por carta por meu pai, militante do PSP. A mulher do dr. Adhemar mandou que me fosse aberta uma vaga no Pavilhão Fernandinho Simonsen a fim de que, depois de uma dezena de cirurgias, eu pudesse ter consertadas as minhas pernas, mesmo que parcialmente.

Tenho saudade de mim na volta para casa, já lá pelos 17 anos, quando decidi enveredar definitivamente pelos caminhos do jornalismo, indo trabalhar como copy da editoria de Polícia em O Diário, em Ribeirão Preto. Depois de três meses sem receber nem mesmo um muito obrigado, deixei de ser jornalista para ser jornaleiro e fui vendendo jornais e revistas no noturno da Mojiana entre Ribeirão e Uberaba.

Tenho saudade de mim por ter sido um lutador, que na juventude matou um leão por dia para poder estudar um pouco, trabalhar bastante e finalmente, embora com apenas a experiência adquirida nos serviços de alto-falante das quermesses juninas da minha vila, chegar à Rádio Difusora de Jundiaí como locutor. Foi um grande aprendizado, pois ali também tive mestres da maior competência, como José Paulo de Andrade, meu companheiro por vários anos num programa matinal.

Tenho saudade de mim já repórter esportivo do Jornal da Cidade, também em Jundiaí, onde bebi da sabedoria de um grande mestre, Ademir Fernandes, que não só me ensinou o ofício do jornalismo, mas porque principalmente me legou a humildade própria dos grandes seres humanos, virtudes que levei para o cargo de editor-chefe tempos depois. E que também me abriria as portas do JT como frila do Caderno de Esportes, ponte que cruzei para chegar ao outro lado do corredor.

Tenho saudade de mim quando, humilde caipira, entrei na redação do Estadão e recebi todas as oportunidades para fazer uma carreira. Uma nova vida durante a qual Deus me concedeu a suprema graça de conviver com profissionais tão famosos quanto simples, que me ajudaram a ser um deles e com os quais pude cultivar uma amizade verdadeira, única, indestrutível. Não me atrevo a citar nomes, pois cometeria várias injustiças.

Tenho saudade de mim, aventureiro e inconsequente, que decidiu largar tudo e mudar radicalmente de vida ao trocar São Paulo por Roraima. Mas foi aqui que, mesmo sofrendo com as limitações impostas por minha deficiência física, acabei descobrindo o repórter que não sabia existir em mim. Foi aqui onde pude escrever meus melhores textos, com os quais ganhei as manchetes do jornal e prestígio para poder estruturar uma vida pacata na aposentadoria.

Tenho saudade de mim, esta mais recente, do escritor que ainda tenta pôr no papel tudo o que guarda na memória, sentimento frustrado de não ter transformado em livro tantas experiências, agradáveis ou não. Como as que deram origem à serie de reportagens sobre a ditadura argentina, que em 1983 ganhou Prêmio Rey de España, para orgulho e honra de uma equipe chefiada por Marcos Wilson e que tinha, além de mim, José Maria Mayrink, Luiz Fernando Emediato e Roberto Godoy. [N. da R.: Plínio contou a saga dessa reportagem neste mesmo espaço, na edição 774, de dezembro de 2010]

Tenho ainda mais saudade de mim, de quem fui, quando começo a sentir intensamente a certeza de que já não tenho tanto tempo mais para fazer tudo o que planejo, mas que continuo sonhando em fazê-lo.

Tenho saudade de mim, do jovem pacífico e esperançoso, num momento em que a maldade, a violência e a corrupção vicejam lá fora. E então vejo que ainda sou o mesmo ser humano que jamais fez mal a alguém, nem mesmo com palavras, fruto de um caráter que muitos me ajudaram a moldar: meus pais, meus irmãos, meus mestres, meus amigos…

Por isso tudo e muito mais, que não cabe neste espaço, é que sinto saudade de mim.”

Bate-papo na Gibiteria

Fala pessoal,

É com imenso prazer que lhes convido para um bate-papo com este que vos fala e os super-gêmeos Marcelo e Magno Costa, autores do álbum Oeste Vermelho e da revista Matinê.

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O bate-papo será nesta sexta-feira, dia 25, na Gibiteria (Praça Benedito Calixto, 158 – 1º andar, 05406-040 São Paulo, Brazil) a partir das 19h e terá mediação do roteirista Lillo Parra. Falaremos sobre processos de criação, projetos de quadrinhos e influências. Ao final, também faremos uma sessão de autógrafos.

Estão todos convidados! Compareçam!

Nanquim, Som & Fúria #24

Norah Jones

Norah Jones

Norinha já é bastante conhecida. Para mim, é uma das vozes mais deliciosas que apareceram nos anos 2000 e também tem se mostrado uma das artistas mais interessantes de se acompanhar. Aos poucos, ela vem migrando do smooth-jazz que a consagrou para o indie-rock. Considerando que, desde que apareceu em cena, Norah tem colaborado uma gama de com artistas tão díspares como Outkast e Belle & Sebastian ou Ray Charles e Foo Fighters, essa metamorfose não é lá uma grande surpresa. O mais importante é que a qualidade e o frescor de seu trabalho continuam intactos. Importante também é que Norah sabe escolher muito bem suas parcerias. Para produzir seu disco mais recente, o ótimo ‘… Little Broken Hearts‘, ela convidou o gabaritado Danger Mouse (Broken Bells, Gnarls Barkley, Rome). Mais do que expandir sua paleta musical, neste disco ela revela facetas além de suas habituais ternura e singeleza.

Bom dia, Roquette!

Charge para o Jornalistas & Cia

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A história desta semana é uma colaboração de Luiz André Ferreira, diretor de Jornalismo da Rádio Roquette-Pinto 94,1 FM, do Rio de Janeiro, e âncora do programa Primeira Página.

Um dia, durante o programa das manhãs Primeira Página da Rádio Roquette-Pinto 94,1 FM RJ (diariamente, entre 9h30 e 12h), um dos entrevistados imaginou que estava falando com o “pioneiro do rádio” Edgard Roquette-Pinto e dirigiu-se ao apresentador com um sonoro “Bom dia, Roquette!”. Talvez os ouvintes nem tenham percebido, já que o nome do “mestre” também é o nome da rádio e, por isso, pode não ter chamado atenção, mas Roquette-Pinto morreu em 18 de outubro de 1954!

No estúdio, foi uma gargalhada geral. O microfone teve que ser cortado enquanto o entrevistado falava sozinho, até que os ânimos tivessem sido controlados pelos apresentadores, produtores e operador. Conseguiram apenas encerrar, sem nem mais uma pergunta, agradecendo e jogando chamadas promocionais na sequência.

Fora do ar, um dos produtores comunicou a gafe ao entrevistado, que lhes pediu pelo amor de Deus para não divulgarmos o seu nome.

Já eu fico imaginando como o Sr. Edgard Roquette-Pinto deve ter sofrido quando era criança (e adulto também) com um sobrenomes desses…

Nanquim, Som & Fúria #23

Jack White

Jack White

O guitar hero da minha geração e um dos nomes mais importantes do rock’n’roll dos últimos quinze anos. Depois de encabeçar três ótimas bandas (White Stripes, Dead Weather e Raconteurs), Jack segue em carreira solo com o Blunderbuss, um discaço que só cresce a cada nova audição.

Nação de muares

Charge para o Jornalistas & Cia

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A história dessa semana vem em boa hora para pensarmos melhor em quem elegemos como nossos governantes.

A história, ironicamente, foi narrada por um governador de estado na abertura do Seminário Internacional de Liberdade de Expressão, organizado pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais.

Tema denso e tenso, ao final da exposição, para descontrair o plenário, o governador contou um causo ocorrido lá pelos anos 1940 ou 1950 na sua terra natal, Pindamonhangaba, no interior de São Paulo.

Os vereadores da cidade, condoídos com a triste situação dos animais que puxavam as carroças, fizeram e aprovaram uma lei que concedia aposentadoria a todos após 30 anos de bons serviços prestados à comunidade. E para abrigar os animais que deixariam a faina diária, trataram logo de encontrar um belo terreno, com fartura de pasto e alimentação, para que passassem o resto de suas vidas tranquilos, como prêmio pela dedicação ao trabalho e ao povo pindamonhangabense.

Um dos jornais da cidade tinha um colunista muito famoso por “pegar no pé” dos políticos e autoridades locais e por fazer comentários sarcásticos das coisas bizarras e erradas que aconteciam na cidade ou região.

O nome da coluna já dizia tudo: É pena pra todo lado. E aprovar uma lei de aposentadoria para muares era o que se poderia chamar de “o ó do borogodó”. Prato cheio para a coluna. Dito e feito.

Tão logo esse colunista soube da lei aprovada pela Câmara dos Vereadores e sancionada pelo prefeito, publicou no espaço: “Os nobres edis de Pindamonhangaba aprovaram uma lei concedendo aposentadoria para os muares, pelos bons serviços prestados ao município. Mas quero aqui fazer uma denúncia. Essa lei é absolutamente INCONSTITUCIONAL. É até possível que os nobres edis não saibam, mas no Brasil é proibida a prática de legislar em causa própria”.

É um caso banal perto dos inúmeros absurdos que vemos por aí, afinal de contas, as pobres mulas mereciam seu descanso depois de tanto prestarem serviço à comunidade. Mas quem seriam parentes dos muares: os políticos, como sugeriu o jornalista, ou o povo que continua elegendo um número sem fim de pilantras até hoje?

EntreQuadros no ManoloSanctis e oficina no Raízes

Nesta sexta-feira, dia 11 às 8h, darei uma oficina de histórias em quadrinhos no Festival de Literatura do Instituto de Ensino e Cultura Raízes, em Boiçucanga no litoral paulista. É sempre bom ter este tipo de contato com o público e, quem sabe, até mesmo com algum futuro autor de quadrinhos. De antemão, já gradeço imensamente a organização do evento pelo convite e por reconhecer o valor artístico das HQs. Nos vemos lá, pessoal!

Minha primeira graphic novel, a EntreQuadros – Círculo Completo, pela qual recebi duas indicações no Troféu HQ Mix deste ano (Novo Talento – Roteirista e Novo Talento – Desenhista), está disponível para leitura agora também no ManoloSanctis, uma comunidade de quadrinhos on-line francesa do qual também faço parte.

Confiram:

EntreQuadros – Círculo Completo by Mario Cesar

Também disponibilizei uma versão em inglês lá. I also published an english version of my graphic novel on ManoloSanctis. Check it out:

Full Circle by Mario Cesar

A edição impressa está à venda com frete gratuito este mês no site da Balão Editorial.

Nanquim, Som & Fúria #22

Silva

Silva

O capixaba Lúcio Silva Souza resolveu assinar seu trabalho usando apenas o seu nome do meio, um dos sobrenomes mais comuns do Brasil. Mas o comum passa longe de seu trabalho. Tem apenas 23 anos, estuda música desde os 2 (!) anos de idade, e, até agora, lançou apenas um EP com 5 músicas que já o colocou entre as maiores promessas da música brasileira contemporânea. Seu trabalho vem sendo comparado a Los Hermanos, Marcelo Camelo, Mallu Magalhães e Thiago Pethit, mas também agrega novos temperos da música eletrônica, especialmente do dubstep e do chillwave. Uma mistureba da boa e deliciosa de ouvir. Silva fará show no Festival Sónar São Paulo no dia 12 e dia 15 também se apresenta no Sesc Pompéia. Seu EP pode ser escutado em sua página no Soundcloud: http://soundcloud.com/silvasilva/sets/silva

Fiquem abaixo com as belíssimas “Imergir” e “A Visita”:

Locutores bêbados

Charge para o Jornalistas & Cia

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A história dessa semana é mais uma contribuição de Sandro Villar.

Na cidade de Adamantina (SP), terra natal de Cláudio Amaral, Gabriel Manzano Filho e Carlos Tramontina, os moradores aguardavam ansiosamente o momento do encontro dos ponteiros do relógio, marcando 12 horas. É que ao meio-dia em ponto e vírgula, naqueles criativos anos 1960, começava na Rádio Brasil o programa do locutor que só falava bêbado. Por uma questão de respeito, visto que o personagem já foi embora deste mundo de ilusões, seu nome será preservado. Teria sofrido uma desilusão amorosa, motivo que o levou a beber mais do que o personagem do cantor Vicente Celestino no filme ‘O Ébrio’. Um locutor de porre no rádio só pode mesmo chamar a atenção. O programa dava audiência em Adamantina. Os ouvintes se divertiam com o apresentador, ora agressivo, ora patético, que, ao contrário dos garotos da época, não amava os Beatles nem os Rolling Stones.

Sem ser nem uma coisa nem outra – agressivo e patético –, um locutor da Rádio Record, cismou que o relógio marcava mais de 24 horas. Um belo dia, tomou umas doses a mais de cachaça e entrou no estúdio para anunciar a hora certa. E meteu bronca. Assim que o operador abriu o microfone, o locutor, com voz pastosa, mandou ver: “Em São Paulo, são 29 horas”.

E um locutor de Presidente Prudente, que virou nome de rua, também se complicou na hora de dar a hora certa por estar de pileque. Nos anos 1980, ele trabalhava na Rádio Difusora, que também virou igreja eletrônica, e apresentava o programa noturno Música Sem Compromisso. Uma noite, no momento de anunciar a hora certa, assim falou ao respeitável público ouvinte: “Você ouve Difusora e Música Sem Compromisso. Em Prudente são 11 horas e 77 minutos”. Isso é que é hora certa sem compromisso com a exatidão.

Um outro caso famoso é o de um locutor-noticiarista de São Paulo, também amante da loirinha e da branquinha. Este locutor protagonizou outro episódio que, segundo as línguas ferinas, quase acabou com o seu casamento. Tarde ensolarada de sábado, nada para fazer em casa, ele resolveu beber num bar. A mulher dele tinha um cachorrinho poodle que era o seu xodó. E pediu ao marido para levar o cão junto, argumentando que o animal já estava ficando neurótico de tanto ficar dentro do apartamento. Meio a contragosto – ou inteiro a contragosto –, ele resolveu atender a esposa. Botou o cachorro debaixo do braço, ligou o carro e saiu em disparada, pois estava doido para molhar a goela. Ao chegar ao bar deixou o cãozinho dentro do carro e foi beber com os amigos. Logo depois o cachorro começou a latir, e os latidos passaram a incomodar. Ele não teve dúvidas: retirou o bicho do automóvel, afrouxou a coleira e o amarrou no parachoque traseiro. O cão se aquietou e ele voltou ao bar.

Lá pelas tantas, depois de tomar aquela e muitas que mataram o guarda e toda a corporação, o que explica a falta de policiamento na cidade, voltou para casa. Entrou no carro e foi embora correndo. Estacionou, pegou o elevador e entrou no apartamento. “Cadê o cachorro?”, perguntou a “dona da pensão”. Ele respondeu com um “Ah!”. Desceu ao estacionamento e, atrás do carro, só encontrou a coleira. Para tentar limpar um pouco a barra, que estava mais suja do que cueca de mendigo, ele teria inventado uma história: à esposa, explicou que havia deixado o cachorro em uma clínica veterinária e que o pegaria na segunda-feira. Para a mulher não desconfiar de nada, seu plano era comprar outro da mesma raça, um verdadeiro clone do pobre coitado que morreu arrastado e esfolado no asfalto.