Os comunas capitalistas

Charge para o Jornalistas & Cia

Luiz Francisco Alves Senne trabalhava no pool de revisão da Abril, que era ligado aos gráficos, no prédio da Marginal do Tietê. Todas as publicações da editora eram revisadas cumprindo o chamado horário industrial, em três turnos: uma equipe trabalhava das 6 da manhã às 14h, a outra das 14h às 22h e a terceira das 22h às 6h do dia seguinte.

Luiz estava na área editorial da Abril desde junho de 1975 e naquele período fazia o turno das 6 da matina às 14 horas. O Departamento de Revisão, que ficava numa sala em frente ao banco, havia sido dividido e uma parte da equipe foi trabalhar na área da Reprodução, dentro da gráfica, por causa das semanais Veja, Placar e Exame. Na seção havia um colega, Benjamin Sérgio Gonçalves, que era mais antigo e exercia a função de secretário gráfico. Entre suas tarefas estava a de fazer o texto caber no diagrama.

O caso em pauta se deu no Dia do Gráfico – 7 de fevereiro –, efeméride que sempre era celebrada pelo diretor geral da Gráfica, Plácido Loriggio, com uma mensagem especial para a equipe, enviada por Circular Interna, também conhecida por CI.Pois nesse dia recebemos a CI no setor de Revisão.

O Benjamin, num momento de descontração, pegou o papel e escreveu, brincando, que preferia receber a parte dele em dinheiro. Ele só não contava que exatamente naquele dia, na troca de turno, a equipe da tarde, que entrava às 14h, fosse atrasar, e que esse atraso quase lhe custaria o emprego, embora ele nenhuma responsabilidade tivesse sobre aquela equipe e muito menos sobre a chegada fora de horário. É que a tal CI ficou na mesa do supervisor de turno, esquecida, como a chamar desgraça. Não deu outra. Apareceu por lá, no vazio da transição, ninguém menos do que o diretor geral.

Aqui faz-se necessário um parêntesis: Loriggio vivia de marcação com o Departamento de Textos, que incluía Digitação, Revisão e Past-up, porque eram vistos como comunas, por conta da formação superior que quase todos tinham.

Loriggio entrou na sala vazia e viu a CI, que ele assinara, rabiscada com a frase “prefiro minha parte em dinheiro”: O homem ficou alucinado e imediatamente rumou para a outra sala de Revisão, onde ficava o supervisor da área, Miguel Facchini, cobrando uma atitude vigorosa por conta do acontecido. Mas o Miguel era gente finíssima e sabe-se lá como conseguiu dobrar o diretor. Deve ter gasto muita saliva para que ninguém perdesse o emprego. E conseguiu, para felicidade geral.

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