De volta à ativa

Acabaram-se minhas férias e nada melhor que voltar pra ralação do que uma charge pro Jornalistas & Cia.

A charge dessa semana é sobre um caso relatado pelo Eduardo Ribeiro, editor do Jornalistas & Cia.

Lá nos idos de 1976, a Abril reuniu um elenco de peso para tocar o projeto TV Guia. Entre os integrantes da equipe estava Hélio Moreira da Silva, secretário da redação.

Helião, como era chamado – pois era grande como um armário –,  tinha um tremendo astral e era um emérito gozador. Com ele não havia tempo quente. Podia o mundo estar desabando na redação que o sorriso dificilmente desaparecia de seus lábios. Quebrava o azedume dos fechamentos com brincadeiras irreverentes e não tinha preferência: azucrinava com todos e nem os chefes perdoava. Mas o restante da redação também teve a sua vez…

Em uma sexta-feira de fechamento, ele saiu normalmente para a reunião de praxe que antecedia as últimas providências da edição. Quarenta minutos depois, beliscando um, assoviando no ouvido do outro, puxando o papel da máquina de um terceiro, ele se dirigiu à sua mesa, que ficava bem no centro da redação, instalada num grande salão retangular, no então prédio que a Abril alugava na rua Emílio Goeldi, na Lapa de Baixo. Sentou-se, satisfeito, por estar com tudo acertado e feliz por ter azucrinado a vida de repórteres e editores, como sempre fazia.

Naquele tempo, não era só computador que não existia. Também não havia celular. Mas tinha aparelho móvel, um antecessor do pager, chamado Bip, que quebrava bem o galho daqueles que precisavam se comunicar em trânsito. Podemos até dizer que o Bip foi um precursor dos celulares, visto que cumpria praticamente a mesma função e tinha na mobilidade sua força principal, embora de alcance muito limitado.

Todos os repórteres de TV Guia tinham Bip, o que considerávamos um privilégio e motivo de certo garbo, pela importância que então se dava àqueles aparelhos usados presos aos cintos até com uma alguma ostentação.

Para acioná-los, bastava ligar para a central de atendimento, dar o código e ditar o recado (favor ligar para fulano de tal, na empresa tal etc.). No máximo em dois minutos o tal Bip começava a apitar, em geral de forma estridente, porque o som (um onomatopaico bip-bip-bip, daí nome do aparelho) precisava ser alto para que o usuário o escutasse, mesmo num local barulhento. Era muito utilizado por prestadores de serviço, que tinham no rápido atendimento um diferencial.

Uns dois minutos depois que chegou à sua mesa, Hélio ouviu um bip muito próximo e estranhou, porque ele próprio não tinha aparelho. Passados uns cinco segundos, mais um segundo bip se somou ao primeiro, vindo de tão perto quanto. Mais cinco segundos, e um terceiro se pôs a berrar: bip-bip-bip, chamando a atenção de toda a redação, num som cada vez mais tonitruante.

Hélio olhava para todos os lados, sem saber e sem acreditar no que estava acontecendo. O sorriso desapareceu de seus lábios, sobretudo quando um quarto Bip pôs-se garbosamente a soar seu alarme.

Os repórteres, um a um se escafediam pelos corredores, rindo às pencas, vendo os Bips dispararem com precisão, após os recados deixados na central de atendimento para seus próprios aparelhos, numa ação em cadeia e integralmente cronometrada.

Quase 40 segundos e mais um quinto, um sexto e um sétimo Bips se somaram ao coro, fazendo estremecer aquela mesa e a ir pelos ares o humor daquele cidadão de quase 100 kg.

O som, vindo praticamente do mesmo lugar, penetrava nos tímpanos e no cérebro de Hélião, que, indignado, levantou-se e se atirou ao chão, no meio da redação, com as mãos no ouvido,  gritando: “Parem com isso, seus canalhas!! Parem com isso!!”. Gritava e esperneava, olhando incrédulo para sua mesa, como se ela tivesse sido atingida por uma bomba H. Foi quando percebeu que aqueles vários bips vinham dos aparelhos que os repórteres, na sua ausência, cuidadosamente haviam fixado sob sua mesa com fita crepe, aguardando a sua chegada para chamar a central de atendimento.

Ele sobreviveu e o fechamento também. O mesmo não se pode dizer da revista, que veio a falecer em dezembro daquele ano, vítima de tiragem raquítica e inanição crônica de audiência.

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