Certa vez, no Diário…

Charge para o Jornalistas & Cia

História enviada pelo Milton Saldanha sobre a época em que trabalhou no Diário do Grande ABC.

Aconteceu durante a edição do extra especial de cobertura do final da Copa do Mundo de 1970, no México. Foi a primeira vez em que a tevê transmitiu a Copa ao vivo. A transmissão por satélite era uma novidade. O Brasil tinha um time invencível e era franco favorito. A equipe do Diário do Grande ABC resolveu soltar uma edição extra. A idéia era lançar o jornal pronto, nas mãos de um batalhão de jornaleiros, meia hora após o fim do jogo, no máximo. Os moleques, mais de cem, iriam com os jornais nos braços para os burburinhos dos festejos nas ruas. Durante a semana inteira fizeram o jornal, com matérias retrospectivas etc.. Na capa pré-montaram um jogador erguendo a taça. E montaram até o texto da matéria de capa, que já tinha manchete pronta, com buracos para detalhes do jogo, resultados etc.. Ou seja, em menos de dez minutos a finalizariam tudo, baixariam para a oficina, que já tinha o jornal todo pronto, faltando só a capa, e… Seria um sucesso!

Ah, e teriam fotos do jogo, dos gols, em primeira mão. O fotógrafo da equipe, Pedro Martinelli, colocou um tripé na frente da tevê e fez as fotos dali mesmo. Reveladas e ampliadas, pareciam radiofotos, muito usadas na época. Quebravam o galho perfeitamente. Durante a semana ele havia feito testes, avaliando os resultados, estudando o melhor ajuste da máquina, tudo. A redação toda em volta, torcendo, gritando, e o Pedro ali, clicando e também torcendo.

Quando o jogo acabou, o batalhão de jornaleiros estava na porta da oficina, aguardando. Mal o juiz apitou e mergulharam nas velhas Olivetti, teclando com fúria. Todo mundo correndo, parecia fechamento de jornal em tevê. Até o boy estava instruído a seguir correndo para a oficina, no sentido literal, com a lauda do texto.

Alguém imagina o que aconteceu?

A luz apagou geral no bairro. Ficaram sem energia. Desesperados, e sem energia para mover as possantes linotipos, o chumbão, como eram chamadas.

Todo aquele esforço de uma semana, toda aquela correria, tremendo esquema de mobilizar jornaleiros numa época em que isso não existia mais, as vendas eram em bancas, muita adrenalina para… Sermos derrotados por um pedaço de fio.

A luz demorou quase uma hora para voltar. E ainda faltava rodar a capa. Não adiantou ligar desesperadamente para a Cia. de Força. O jornal foi para as ruas, mas sem o impacto dos primeiros minutos, para surpreender o povo, como haviam planejado nos mínimos detalhes.

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