EntreQuadros em formato e-book

Boa notícia do dia: a EntreQuadros – Círculo Completo agora também pode ser adquirida em formato digital pela loja Gato Sabido! Custa só R$ 9,90, menos da metade do preço da edição impressa.

Para quem ainda não sabe, esta é a primeira graphic novel, publicada pela Balão Editorial. Por ela fui indicado ao Troféu HQMix 2011 nas categorias Novo Talento – Roteirista e Novo Talento –  Desenhista.

Sobre o que é o livro?

E se não fosse possível esquecer um grande relacionamento? E se a memória desse amor interrompido impedisse você de seguir adiante? O psicanalista Freuderico se depara com essas questões após terminar o relacionamento com sua amada Martha. Então, surge em sua vida Karina, que pode ser a terapia de que ele precisa, tendo como divã a cidade de São Paulo, mais que um cenário, quase um personagem, com sua vida noturna e cultura pop diretamente envolvidas na vida de Freuderico.

O círculo se completa sempre? Há como resetar um grande amor e uma grande perda para começar de novo? É sobre isso que versa EntreQuadros – Círculo Completo, com um pano de fundo repleto de fantasia, amor, perdas e recomeços.

EntreQuadros na Livraria Cultura

As duas edições de EntreQuadros podem ser adquiridas em formato de e-book na loja Gato Sabido e em formato impresso pela loja da Balão Editorial ou em livrarias especializadas:

Nanquim, Som & Fúria #31

Tulipa Ruiz

Tulipa Ruiz

Flor vistosa da atual cena musical brasileira, Tulipa já estaria tocando incessantemente nas rádios AM e FM desse país se elas estivessem mais abertas a novidades. O som de Tulipa consegue ser acessível e experimental ao mesmo tempo, consegue dosar com muito talento o novo e o tradicional. Vejo nela uma evolução do tropicalismo em direção ao que há de bom no pop contemporâneo. Dona de um gogó de ouro e de letras inspiradas, Tulipa faz músicas que são belas crônicas de nossos tempos. ‘Só sei dançar com você’, uma das pérolas de seu primeiro disco (‘Efêmera’) está na trilha da novela Cheias de Charme. Ela está prestes a lançar seu aguardado segundo disco (‘Tudo Tanto’) e já disponibilizou três novas músicas para download gratuito no site do Natura Musical.

Nanquim, Som & Fúria #30

Daughn Gibson

Daughn Gibson

Uma das boas revelações de 2012 e que tem tocado direto na minha playlist por aqui. Daughn Gibson faz uma mistura que à primeira vista pode parecer estranha: country e blues com synthpop e new wave. Seu som é algo como um Johnny Cash usando sintetizadores e recursos de música eletrônica à la Depeche Mode. No vozeirão de Gibson, a narrativa do country ganha uma ambientação mais urbana com ares mais soturnos e uma bela dose de sex appeal. O disco de estreia dele se chama ‘All Hell’, vale a pena conferir.

Nanquim, Som & Fúria #29

Shirley Manson

Shirley Manson

O Garbage é uma das bandas mais bacanas que surgiram nos anos 90. É a banda que talvez melhor sintetize as principais tendências musicais da época (o grunge, o rock industrial, o punk, a música eletrônica e o trip hop) e ainda contam com uma vocalista tão carismática e exuberante como a Shirley Manson. Estavam há sete anos sem lançar nada novo por conta de problemas com gravadora, mas este ano lançaram de forma independente o classudo “Not your kind of people”, um disco que recupera o fôlego criativo de seus primeiros discos. Eles se apresentarão no Festival Planeta Terra e esse é um show que eu não perderei por nada.

Nanquim, Som & Fúria #28

Mallu Magalhães

Mallu

Mallu está crescendo a olhos vistos. A cada novo disco, e já está em seu terceiro em tão pouco tempo de carreira, ela dá passos cada vez maiores. Já havia desabrochado em seu segundo disco, produzido pelo onipresente Kassin, mas agora, sob a tutela de seu amado Marcelo Camelo, se firma de vez como uma das artistas mais talentosas de sua geração. Seu terceiro disco, “Pitanga”, é um espelho do soberbo “Toque dela” do Marcelo Camelo. É como se os dois estivessem trocando inspiradas e calorosas cartas de amor. E é difícil não se encantar com a pureza e ternura da relação dos dois.

Ela estreia a turnê de seu disco mais recente neste final de semana no Sesc Vila Mariana.

Desemprego na terceira idade

A charge dessa semana para o Jornalistas & Cia é sobre um assunto sério: um desabafo de Wanderley Midei sobre a dificuldade, mesmo com toda sua rica experiência, em se conseguir um emprego na terceira idade para poder complementar o orçamento apertado de sua aposentadoria.

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O texto completo de Wanderley poderá ser conferido a partir da semana que vem no Portal dos Jornalistas.

Nanquim, Som & Fúria #26

Fiona Apple

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Ao lado de Erykah Badu, Fiona é, para mim, a cantora mais fascinante dentre todas as que surgiram nos anos 1990.

Muita gente só a enxerga como louca e desajustada, especialmente por conta de seu famigerado discurso de aceitação na entrega do prêmio de revelação do ano no VMA da MTV norte-americana. Muitos se chocaram com ela dizendo ‘This world is bullshit’ numa premiação dessas, mas a passagem mais marcante neste discurso é ‘You shouldn’t model your life by what we think it’s cool or what we’re wearing or what we’re saying and everything. Go with yourselves.’. Fiona é, de fato, louca e desajustada, como qualquer outra pessoa vista de perto, mas também é uma musicista, letrista e cantora brilhantes e simplesmente não vê suas imperfeições como insultos. Ela expõe isso tanto em sua música como em entrevistas com uma franqueza atordoadora e inspiradora ao mesmo tempo. Ao ser convidada para um ensaio de uma revista, por exemplo, já chegou a pedir que fotografassem seus joanetes para que outras garotas que nasceram com a mesma deformação nos pés não se sentissem mais desconfortáveis com eles.

Sei que é pieguice, mas, para mim, as músicas da Fiona Apple tem um poder de desconstrução, de autodestruição, para, em seguida, reeguer algo mais forte. Elas retraram o doloroso processo do crescimento com mais força do que qualquer outro artista que conheço.

Depois de um hiato de sete anos, ela voltou com mais um álbum primoroso cujo título é um poema: “The Idler Wheel is wiser than the Driver of the Screw and Whipping Cords will serve you more than Ropes will ever do”. O disco só sai dia 19 de junho, mas já pode ser ouvido no site da NPR.

Segue abaixo o clipe mais recente dela e outra dentre as suas muitas músicas que mais gosto:

Baú de lembranças

Charge para o Jornalistas & Cia

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O texto dessa semana é de Luiz Roberto de Souza Queiroz, o Bebeto.

“A caixa com mais de 80 credenciais, lembrança de 44 anos de reportagem, aparece como todo ano no meio das velharias para jogar fora e, como todo ano, adiamos a decisão de mandar para o lixo.

São lembranças distantes, credencial da visita do príncipe Akihito do Japão, do De Gaulle, do Xainxá do Irã (quando a gente nem imaginava o que seria um aiatolá), do rei Olavo V da Noruega, da Rainha Elizabeth, do presidente Marcelo Caetano, de Indira Ghandi, de Miterrand, do presidente da Itália (nem lembro quem era) quando vieram ao Brasil.

A credencial mais antiga, do Congresso da UNE de Santo André, assinada por alguém sem sobrenome, Pedro João Francisco, junto com a carta do secretário de Redação Nilo Scalzo, de 23 de julho de 1963, dizendo que eu estava credenciado pelo Estadão a cobrir o XXVI Congresso Nacional de Estudantes, em Santo André. A carta era necessária porque, recém-contratado, ainda estagiário, não tinha carteira do jornal, que fazia falta, já que para os Jogos Panamericanos tive que ser credenciado como Auxiliar de Repórter, equivalente a “filhote de foca”.

Há documentos estranhos no meio, como a credencial da Union Internationale des Télécommunications que me autorizava a passar notícias da revolução da Bolivia na forma telegramas, credencial do II Congresso Nacional sobre Educação Sexual, da Feira da Indústria Britânica de 1969 e, em 1994, levei no peito a credencial do Jornal Infecto, emitida pelo VIII Congresso Brasileiro de Infectologia, menos embaraçosa do que a credencial da União de Tendas Espiritas de Umbanda e Candomblé, assinada por um diretor que me identificou como “Imprença”, que corrigi à mão, de vergonha.

Curiosa também a credencial da visita do Papa João Paulo II, na qual sou identificado como Francisco de Assis Alves Brant, com direito a foto do gajo. É que minha credencial sumiu e me deram outra, de um repórtter que não apareceu.

Há dúzias de credenciais do Ministério da Guerra, autorizando “livre acesso para o exercício de sua profissão”, isso em 1969, imaginem, para o Grande Comicio das Diretas; para a assembleia da Sociedade Americana de Imprensa; para o Carnaval; para a chegada do “Exmo. General de Exército Costa e Silva” a Congonhas, em 1964, credencial da 4ª Zona Aérea, o que não me impediu de ficar preso no quartel, de onde Oliveiros Ferreira me tirou, gritando ao brigadeiro José Vaz que “o Bebeto é como um soldado, cumpre ordens do comandante, que sou eu: se é para prender alguém, me prendam, mas não a ele”, momento que me enche de orgulho de ter trabalhado no Estadão. Há muitas credenciais da Federação e do Sindicato dos Jornalistas, que sempre tentamos fazer valer, mas eram recusadas pelas autoridades de plantão.

A caixa tem de tudo, braçadeiras de feltro escrito “Imprensa”, cartazes para o parabrisas com carimbo da Casa Civil, garantindo “Trânsito Livre”, para que o carro de reportagem, às vezes o fusquinha do Mané ‘Fitipaldi’ não fosse barrado na carreata, e credenciais assinadas por companheiros que se foram, Ennio Pesce, Vitor Paladino, entre  outros.

É um montinho de credenciais coloridas, que todo ano a Táta tenta montar num quadro e toda vez acaba voltando para o armário. Toda vez, menos agora, que ao comentar sobre elas no eXtadão, no Facebook, recebi o carinho da Maria Luiza Brandalise, do Waldo Claro, do Zeca Cafundó, do Roberto Capuano, do Flávio Serpa, do João Luiz, dizendo que não jogue fora. E, para completar, o pedido do Wilson Baroncelli, do Jornalistas & Cia.’ pedindo para publicar o texto, aqui ampliado.

Acho que eles têm razão. Cada credencial acende uma lembrança: as credenciais assinadas pelo Cesar Tácito Lopes, que nos permitiam sair do Dops depois de tentar inutilmente colher notícias que sabíamos não seriam publicadas; do medo do delegado Alcides Cintra Bueno, o “Alcides Porquinho”, ameaçando aos gritos prender o repórter que tentasse cumprir a missão de fazer reportagem. Achava que eram lembranças que apenas eu sentia, fonte de energia que afeta só a mim, quando pego cada credencial. Como dizia Sartre, “a verdade de cada um é única e incomunicável”.

As manifestações dos colegas mostraram, porém, que esse passado doce-amargo não é uma lembrança pessoal, é partilhada pelo Waldo Claro, que guardou a credencial do Estadão assinada por Ruy Mesquita; pelo Wanderley Midei, que as mantém numa mala, sob a cama; do Plínio Vicente, que se ofereceu para comprá-las para que eu não jogue fora; do Renato Lombardi, que deve ter muito mais credenciais do que eu; do João Luiz Guimarães, que, na outra ponta, tentava publicar o material censurado.

As credenciais lembram tempos difíceis, em que, com elas na mão, dizíamos com falsa segurança e ainda mais falsa coragem “eu sou do Estadão e vim fazer reportagem”; em que a gente tentava ter notícias dos companheiros presos no DOI-CODI, do Duque Estrada, que pensávamos, não será torturado, afinal é de família de militares; do Markum e da Diléa, do Tadeu, que os milicos até negavam que estavam presos; do Rodolfo Konder, que a ditadura enfraquecida deixou sair da prisão para assistir ao enterro do Vlado e a quem só então, à beira do túmulo, pudemos abraçar por um segundo; de tantos mais, que escaparam da ditadura mas, anos depois, não da morte, e cuja ausência deixa a vida mais vazia: Manente, Reali, Aluane Neto e meus professores de jornalismo e de coragem Hélio Damante, Antonio Lúcio, Mathias Arrudão, Frederico Branco.

E agora, depois da saudade, da manifestação dos companheiros, depois de tantos anos de hesitação, a Táta finalmente está levando a velha caixa de sapatos para o moldureiro montar um quadro, lembrança de todos nós, do jornalismo heróico que vivemos um dia. E revivemos hoje, na memória.”